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Queens of the dead, de Tina Romero, vai além dos artifícios do horror

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O circuito cinematográfico precisa de disrupção, é isso que o manterá vivo em tempos de dominação do streaming e ‘interesse exclusivo’ do espectador no que é badalado e formatado para o sucesso. O campo do circuito precisa ir além do blockbuster de Hollywood, porque esses recursos muitas vezes não provocam qualquer reflexão, e o debate precisa ir além de premiações também (sejam Oscar, Cannes, Berlim, Veneza…) para que outras narrativas se mostrem com relevância e potência. Dito isso, um filme tal Queens of the Dead conseguir espaço, distribuição e abraço irrestrito não só é um momento feliz, como precisa ser repetido com mais frequência. O espectador base do cinema irá atrás de projetos como esse quando não estiver com o olhar exclusivamente pregado no material midiático do momento, seja qual for sua natureza. 

Dirigido por Tina Romero, trata-se de herdeira de um dos mais representativos nomes do cinema mundial no tratamento do terror – George A. Romero. Sua estreia em longas metragens com Queens of the Dead busca comunicação com as origens de quem claramente a inspirou, mas também ir além na sua busca óbvia por uma discussão em torno da representação imagética e política na frente das câmeras. Então temos essa experiência inicial co-ligada ao trabalho histórico de seu pai, a realização de um título infestado de zumbis, mas sua lógica é moderna e ‘vintage’ ao mesmo tempo. Tina cria uma ponte entre os tempos, e entrega um filme de rara beleza em suas entrelinhas na ausência de obviedade. 

Na tela, vemos não apenas drag queens, essa observação também é carregada do que se espera dentro do filme. Ok, não é todo dia que um filme estreia nos cinemas protagonizado por artistas dessa performance, mas Queens of the Dead, como é dito, vai além da representação da primeira imagem. Entre participantes do Ru Paul’s Drag Race (a hipnótica Nina West) e uma atriz em ascensão (Katy O’Brian, de Love Lies Bleeding), temos uma quantidade de corpos dissidentes em posição de protagonismo fora do comum, atores e atrizes de idades, experiências e etnias diversas, e a propagação da beleza fora dos padrões. Nada disso é explicitado pelo roteiro, mas sua fundação é tão aprofundada no que é mostrado, que nada precisa do verbo para declarar-se; é escancarado na tela, e o espectador só se percebe inserido nessa questão ao analisar o que viu, nunca dentro da obra. 

Essa é a melhor forma de difundir uma ideia, colocar-nos a par de seus valores e suas bifurcações, trazendo normalidade para a falta de normas estéticas. Na tela temos a política praticada de maneira intrínseca à narrativa, sem clarificar uma espécie de discurso. Queens of the Dead é uma produção de baixo orçamento que consegue seu engajamento através da criatividade e do arrojo do que pretende comunicar, o que faz com excelência. O talento da jovem Romero é delineado em suas incursões pelo humor que é perseguido à exaustão, e que conta com o elenco inspirado para solucionar tantos de seus possíveis problemas. Na prática, nenhuma dificuldade soa aparente, porque fica muito claro rapidamente as inspirações de época, gênero e a devoção de seu roteiro pelo que está contando; o resultado das escolhas é a pureza de sua verdade. 

Por trás do “terrir” do filme, (não) se esconde seu verdadeiro caráter, absolutamente necessário para os dias de hoje: provocar uma mudança no status quo, da indústria propriamente dita – ainda que só abra o leque da discussão – e do padrão normativo com o qual a sociedade é aparentemente composta. Queens of the Dead recruta protagonistas que exibem suas formas, suas cores de pele, suas orientações de gênero, fora do debate e dentro de um aspecto positivo por si só. É um material de absorção sócio-político que não se encontra na maior parte dos título acerca do universo LGBTQIAPN+, porque não está de olho em uma entrada de mercado pela via da aceitação dentro das regras não-tácita, mas pelo confrontamento com sua maneira de ser.

O filme ainda encontra espaço para uma crítica muito bem-vinda acerca da cada vez maior zumbificação social mediante necessidades supérfluas, como alcançar espaço midiático, e manter sua vida virtualmente programada. Queens of the Dead até utiliza esse símbolo à exaustão, para mostrar como o verdadeiro terror de hoje é o controle que as redes sociais e essa necessidade de aceitação para o outro diminui o que deveriam ser nossos principais focos. Repetidas vezes a cena dos zumbis conectados ao mundo virtual é preparada, mas como esse também é um filme produzido para o público jovem – e principal mantenedor dessas práticas comparadas ao vício – o toque permanece urgente e válido. 

Ao longo da projeção, Queens of the Dead vai além dos artifícios do horror dentro do gênero cinematográfico; aproximando-se do que esse olhar tem de inclusivo para seus personagens, o medo da morte é aplacado cena a cena pela certeza da união. Muito mais importante do que sobreviver a um ataque zumbi, é ter aceitação todos os dias, afeto todos os dias e pessoas com quem contar, todos os dias. É como se as redes de proteção fossem as reais válvulas de sobrevivência para uma parcela cada vez mais representativa da sociedade. E aí, não importa quando uma mordida fatal irá chegar, mas sim quem estará ao seu lado no momento derradeiro. Sobreviver só é válido quando é para estar na companhia da família que te acolhe e isso zumbi nenhum pode nos tirar. 

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