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“Uma Vida Em Cores” celebra a conciliação com o Tempo

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Quem viu, faz pouco, o filme-delícia “Sexa”, de Gloria Pires, foi brindado com uma participação encantadora de Rosamaria Murtinho. Numa atuação rápida, mas inesquecível, ela traz uma definição digna de dicionário “Aurélio” para rugas e outras cicatrizes da idade: “são marcas de combate”. Ironia similar marca a luta contra o etarismo e o uso proibitivo da palavra “Chega!”, para quem já passou dos “enta” (no caso dela, são 93), na peça teatral “Uma Vida Em Cores”.

Sonares do prazer (que é viver) hão de disparar diante de sua forma de compor a fashionista norte-americana Iris Apfel (1921-2024), designer de interiores que fez a extravagância parecer bom gosto. Ao longo de 102 anos de uma vida toda pimpona, ela converteu o design de interiores numa expressão dionisíaca das potências da vida. Casada com o empresário da indústria têxtil Carl Apfel por quase 70 anos, Iris adquiriu tecidos dos mais exóticos e fez deles parte da forma como a América adereça seu mundo de prospecção.

A Casa Branca foi seu caminho da roça por muito tempo, uma vez que ela decorou esse signo de Poder para vários presidentes, travando amizade com muitos. Impôs, a cada troca, um flerte com a liberdade, palavra que serve de mote para a delicada dramaturgia de Cacau Hygino. A direção também é dele, que tem um trunfo na mão: a dicção poética de Rosamaria.

Poucas estrelas em nossas artes cênicas e audiovisuais pontuam um texto, numa rubrica pessoal, como a intérprete do sucesso da TV “A Moça Que Veio De Longe” (1964). Cada frase dela, em “Uma Vida Em Cores”, é um gargarejo filosófico sobre o prazer de resistir, de durar. Rosamaria valoriza cada encontro consonantal, cada a, e, i, o ou u como numa esgrima.   

Em “Uma Vida Em Cores”, Ela toma emprestada a mesma calma que a Iris lá de fora esbanjava. Hygino nos tira a prova dos noves ao, malandramente, iniciar o espetáculo com um introito documental feito pelo artesão do real Albert Maysles (1926 – 2015), recontextualizado numa reportagem com imagens do documentarista Yves Goulart. A fricção entre a Iris da vida e a Iris do teatral gera um jogo de criação de persona: o que contam não são os fatos, num cartesianismo biográfico, e, sim, o modo longevo de ser. Rosamaria mostra que Iris Apfel foi uma só, singular, mas gerou um módulo que serve de exemplo a quem não quer se render ao esquecimento.   

No palco, conduzida por Hygino, sob o arranjo de luz apolíneo de Adriana Ortiz, a titã Dona Murtinho sabe ser de uma generosidade singular ao dividir a bola com sua neta, Sofia Mendonça, que se mostra uma espoleta em cena. Sofia encarna uma jovem jornalista, em fase de estagiária da revista “Vogue” americana, cuja missão é entrevistar Iris.

O dispositivo jornalístico do Q+A (perguntas e respostas) rende uma dinâmica velocíssima, que é (muito bem) triangulada pelas intromissões assistente de Miss Apfel (Simone Soares) e por uma participação, em off, por telefone, de Heloísa Périssé. A sabatina é um estudo sobre como aproveitar as deixas que o Presente nos oferta.

Enlevada pela triunfante realização dos figurinistas Alex Palmeira e Adilson Salú, ao reviverem o guarda-roupa de Iris, a plateia se deixa comover pelos desabafos da personagem de Rosamaria ao dizer que Tempo, essa máquina de fazer monstros, pode ser uma carrocinha de algodão doce se a gente souber desfrutar de cada segundo. Na doçura, ganhamos uma peça que celebra a conciliação (com a gente mesmo, com o passado) e que nos dá a certeza de que este país foi (mesmo) abençoado ao ter divas como Murtinho. 

Saiba mais sobre a peça!

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