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Velhos Bandidos: Fernanda Montenegro se despede das telonas

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O cinema brasileiro geralmente carrega uma carga pesada para a tela grande. Ou trata-se de um filme premiado internacionalmente cheio de credenciais, ou temos em mãos filmes experimentais cujos festivais nacionais louvaram, ou blockbusters cheios de estrelas cuja função primordial é levar espectadores aos cinemas em pencas, no meio disso, uma produção como Velhos Bandidos soa como um OVNI. Pensado em larga escala, com uma produção robusta, somos apresentados a um produto final que soa com uma suavidade que não se imaginava, com uma leveza de intenções que não é comum em qualquer cinematografia, mas especialmente a brasileira (do qual mais temos contato) parece apartada dessa natureza, onde a pressão por resultados parece pedir espaço para a despretensão passar. 

Claudio Torres vinha de uma carreira cinematográfica das mais promissoras quando lançou O Homem do Futuro, seu maior sucesso comercial, e que foi bem de crítica também. Sua estreia na direção de longas tinha ocorrido 7 anos antes, com o premiadíssimo Redentor. Logo após o sucesso com Wagner Moura, no entanto, Torres emendou vários trabalhos televisivos (e retomou sua antiga parceria com Marisa Monte), e somente quase 15 anos depois de seu último longa, retorna aos cinemas. Como todos os seus títulos anteriores, trata-se de uma comédia que tem uma senhora responsabilidade, a princípio: sua mãe, a “desconhecida” Fernanda Montenegro, declara que trata-se de sua despedida dos cinemas. Prestes a completar 97 anos, nossa Maior de Todas resolveu descansar das telonas, com todo direito. 

Com isso, Velhos Bandidos adquiriu um status maior do que propõe para o público, e a expectativa, nesse caso, pode não ser boa aliada. O melhor a ser feito diante do filme é encará-lo como esse assumido objeto não identificado: uma produção que não tem qualquer outra intenção que não a de fazer o espectador relaxar e aproveitar cada um dos 90 minutos dentro da sala de cinema. Seu compromisso é com o prazer de acompanhar uma história redonda, bem contada e sem maiores arroubos estéticos, mas isso conservando um caráter clássico de contar a mesma história já vista antes. Um roteiro sobre golpe, onde grupos de espertos sempre precisam mostrar uma nova faceta de inteligência durante os preparativos de um golpe definitivo, capaz de transformar um grupo acima de qualquer suspeita em potenciais criminosos – incluindo um casal de idosos. 

O ritmo do filme é bem calibrado ao que pede uma comédia de ação, ou a coisa mais parecida com isso possível. Porque, no fundo, Velhos Bandidos não tem algo de mais memorável, cinematograficamente falando, que esse encontro entre colegas veteranos e sua capacidade graciosa de não nos cobrar uma solução para os eventos de forma exuberante. No tanto que pode entreter – e o faz de maneira eficiente – o filme igualmente entrará na nossa lembrança como a despedida de Fernanda Montenegro das telonas, e quase nada além disso. Que os convites para participar dessa festa de despedida tenham incluído tantos nomes prestigiados, essa é a ideia de evento inesquecível, de alguma maneira. 

Falamos de um grupo que reúne, além dos personagens centrais, Reginaldo Faria, Vera Fischer, Tony Tornado, Teca Pereira, Hamilton Vaz Pereira; ou seja, trata-se de um momento verdadeiramente raro. O filme ainda guarda um protagonismo raro a Ary Fontoura, um dos mais formidáveis e ativos atores brasileiros, infelizmente com passagens esporádicas pelo cinema (mas que retorna em breve, com Amigos em Fuga), aqui à vontade. Bruna Marquezine e Vladimir Brichta estão igualmente encantadores como os jovens ladrões que se veem refletidos no casal mais velho, enquanto Lázaro Ramos tem o personagem mais plano do elenco principal, e faz o que pode com o material. 

Mas não vamos nos enganar, o motivo principal para nos deslocarmos aos cinemas sempre que seu nome é anunciado, é Fernanda Montenegro. Após sua espetacular interpretação ano passado em Vitória, a dama maior volta a se apropriar de uma vertente sua que o cinema não encontrava há muito tempo: o humor, aquele até quase rasgado. O que caracteriza esse possível derradeiro encontro com o Cinema é o prazer absoluto; trabalhar com o filho, estar ao lado de amigos da vida toda, poder ainda protagonizar um filme que se candidata a blockbuster, e muito disso por conta de sua presença, é um privilégio para o público. Nenhum agradecimento será suficiente em vivermos o mesmo tempo de dona Fernanda, e poder observar, ainda que por um milésimo, a grandiosidade de sua postura e seu talento que persiste em nos impressionar. Bravo! 

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