- Publicidade -

A Cronologia da Água: Kristen Stewart estreia na direção em drama visceralA Cronologia da Água

Publicado em:

2025 foi um ano de profusão entre atores estreando na direção de longas, e muitos jovens entre eles: Scarlett Johansson (A Incrível Eleanor), Harris Dickinson (Urchin) e Kristen Stewart são alguns dos exemplos. Essa última está estreando nos cinemas com A Cronologia da Água, e seria bom que agora seus novos colegas de trás das câmeras tivessem 50% da coragem que a atriz de Spencer Love Lies Bleeding apresenta aqui. Talvez atrelar as habilidades demonstradas por Stewart exclusivamente à coragem não seja direito; não é um tema fácil o que a atriz escolheu para encarar em sua estreia, e a sensibilidade que ela resolve seus contornos em cena é invejável para muito diretor consagrado. Isso também é oriundo do empenho de uma atriz que escolhe destemer-se a cada novo trabalho, à frente ou por trás das câmeras. 

Lidia Yakunavitch é uma escritora que na juventude foi aspirante a nadadora e atleta olímpica, que sucumbiu aos sonhos por conta de uma série de episódios de violência sofridos por ela. O que A Cronologia da Água encampa de mostrar é uma espécie de relato poético, e metafórico dos eventos que se seguiram durante a juventude, e talvez exatamente por isso, tão mais impactantes eles pareçam. De abuso em abuso, de violência em violência, a personagem não se constrói em cima de horrores, mas a partir da observação desses acontecimentos a partir de um filtro de imagens que a conectam à poesia, lugar onde Lidia um dia encontrará abrigo. Ou seja, é uma leitura do passado a partir dos filtros do presente, que rearranja os elementos para afastar o horror. 

No entanto, tudo que não está na imagem, é reconfigurado pela metáfora que a água representa; a água, seus elementos líquidos ou derivados, e suas metáforas para os desdobramentos do que a protagonista vê, sente e vive. O olhar de Stewart estabelece novas visões a respeito do que é permitido, e o trabalho sonoro que ela imprime é talvez um personagem paralelo, que conduz o espectador a esse jogo de imagens que parecem aleatórias, à primeira vista. O caráter sensorial que é tomado pelas decisões de direção, narrativa e fotografia, tiram A Cronologia da Água do escopo onde o filme seria facilmente reconhecível. Mas não há qualquer padrão no que está sendo contado aqui, que assemelhe a experiência assistida a uma trajetória, seja ela qual for. 

Stewart veio de uma desconstrução narrativa pelas mãos de Pablo Larraín e a visão dele a respeito dos últimos meses ao redor de Lady Di, e promove ela mesma sua revisão histórica a partir de uma personalidade igualmente assolada pela violência perpetrada pelo externo. Em A Cronologia da Água, a fuga dos constantes abusos paternos a faz tropeçar em outras categorizações de violência, inclusive auto infligidas. Algumas de ordem prática (o vício, por exemplo) e outras de fundo emocional, mas através do tempo que o filme recalcula, de maneira bem peculiar em suas elipses, o filme mostra que não estamos livres de nenhum terror que nos foi cometido, inclusive permitindo-se ferir e promovendo ferimentos. 

Muito do requinte de A Cronologia da Água advém dessa dicotomia entre o que é atmosférico e sutil, e a represa sanguinária que corre nas entrelinhas das imagens. O que está em primeiro plano da história contada é essa natureza de constante horror representado pelas constantes violências escondidas que a protagonista sofre, mas a natureza da obra é embasada pela força das águas que embalaram a existência de Lidia, e que também a refugiou. Então o que não vemos é igualmente tão assustador e traumatizante quanto aquilo que está na superfície; em essência, a atriz que vimos começando em O Quarto do Pânico e ganhou um séquito de fãs com Crepúsculo aqui se revela uma artista na maturidade, quando entende que sua contribuição para o cinema não precisa ser decalcada de nenhuma outra. Suas inspirações e aspirações tendem a alguma originalidade, na seara das mesmices como estamos acometidos normalmente. 

Nada do que é visto seria eficaz sem a presença e a fúria indomável de Imogen Poots na cabeceira da mesa. Aos 36 anos e vivendo uma personagem em período etário bem maior, a atriz de Meu Pai nunca teve antes a oportunidade de contribuir dessa maneira com produção alguma. Agarrando cada segundo em cena com uma presença acertadíssima, o corpo da atriz fala tanto quanto seu rosto. Esse é mais um elemento marítimo utilizado por Stewart: arremessar nas correntezas sua protagonista, no que o corpo da mesma responde de maneira exemplar. É um  daqueles trabalhos tão complexos de fruição, por também não ser o que é esperado de uma entrega biográfica. Assim como A Cronologia da Água se comporta como a preparação de uma tormenta em alto mar, minutos antes da explosão do temporal, Poots grava em seus olhos o destemor de quem enfrentou um dilúvio e sobreviveu para contar. 

Mais Notícias

Comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here

Nossas Redes

2,459FansGostar
216SeguidoresSeguir
125InscritosInscrever
4.310 Seguidores
Seguir
- Publicidade -