- Publicidade -

André Sturm apresenta versão cinematográfica de Conspiração Condor

Publicado em:

O cineasta André Sturm estreou em longas metragens há 25 anos atrás com um filme que conseguiu projeção e venceu prêmios, Sonhos Tropicais, protagonizado por Carolina Kasting, cuja atuação foi laureada. Seu envolvimento como gestor cultural e público o afastou da carreira, que ele retoma agora prestes a completar 60 anos, com o criativo A Conspiração Condor. Para quem está familiarizado com a expressão, a “operação Condor” foi uma campanha de repressão política em plenos anos 1970 perpetrada pelos Estados Unidos para coibir os levantes políticos em países da América Latina, tais como Chile, Uruguai, Paraguai, Argentina, Bolívia e Brasil. Como era de natureza clandestina, grande parte do que é atribuído a campanha não conta com números oficiais, mas sua atuação foi fundamental para que o continente fosse mantido em estado de constante tensão federal, com a ajuda do aparato das forças armadas de cada lugar, dispostos a manter seu poder. 

Assim como em sua estreia, baseado em romance de Moacyr Scliar sobre eventos de pano de fundo à Revolta da Vacina em 1904, aqui sua recriação histórica ainda conta com motivações políticas em sua nova obra. Mas Sturm parece menos propenso a um mergulho mais profundo e sim a aventurar-se em uma seara pouco reproduzida no cinema brasileiro: o thriller de espionagem. A Conspiração Condor é uma produção devota de cineastas como Alan J. Pakula e Sidney Lumet, e suas motivações encontram respaldo entre esses mestres ao assumir-se como uma espécie de sátira do gênero. Quanto mais abertamente cinematográfica os diálogos entre narrativa e personagens tendem a mostrar, mais curioso é seu resultado, que avança rumo a essa conotação divertida em cada novo bloco de ação. 

Especificamente, Sturm tem referências que se explicitam, como a citação direta a Sob o Domínio do Mal (descrito nominalmente, ou seja, mais explícito impossível), de John Frankenheimer – uma aula no tratamento da espionagem e paranoia –  e o que desencadeia a impressão do espectador, que é Zelig, de Woody Allen, quando os personagens de Mel Lisboa e Dan Stulbach se conhecem em Brasília. A partir dali, o filme passeia constantemente pela farsa em compreensão rara do que é feito para esses fins. Sejam nas performances comprometidas de Mel Lisboa e o partner principal, Nilton Bicudo, seja no arsenal de possibilidades que a fotografia de Andradina Azevedo propõe com seu “sotaque” do gênero, A Conspiração Condor é um organismo vivo. 

Não raro, existe uma forte influência do grupo ZAZ – Jerry Zucker, Jim Abrahams e David Zucker – no que vemos, principalmente Top Secret, mas não sei dizer se isso é uma busca do filme ou uma confluência de circunstâncias. Mas estamos diante de um projeto que foge dos padrões apresentados pelo estado das coisas do que chamamos de indústria hoje. Porque mesmo a percepção para algo paródico surge com frequência na nossa cinematografia, e maneira como isso é tratado em cena, com a câmera em closes e supercloses, o emolduramento exagerado dos planos em constante movimento, a trilha sonora muito demarcada, conferem essa ideia a A Conspiração Condor. Isso o liberta de obrigações de ordens formais e narrativas que pudessem domar uma dita normalidade naturalista ao filme. Quando passa a soar como uma espécie de leitura exagerada de eventos, o filme provoca um certo relaxamento e passa a respirar aliviado. 

É importante ressaltar que não falta respeito de Sturm à temática apresentada; essa seria uma tensão desnecessária diante de um momento onde o cinema é tão celebrado ao retomar aspectos diferentes da ditadura em seus sucessos recentes. Reencontrar-se com o tema da maneira leve e descompromissada que Sturm faz, com direito a sua própria aparição em cena em uma grande homenagem, ao a figura de Pedro Bial em um visagismo de Carlos Lacerda, desmonta o espectador. A duração estendida tem cadência exemplar na montagem de Nina Galanternick e o que poderia ser uma experiência desgastante, acaba se mostrando um encontro feliz com um cineasta disposto a experimentar gêneros, cheio de espirituosidade. 

O feliz encontro com Mel Lisboa, e a interação da mesma com Bicudo, é o laço de fita que faltava a essa mistura saborosamente imperfeita. Afinal, o tom não é sempre o mais adequado, e a reconstituição de época deixa a desejar, mas ao lado de Lisboa e o seu fiel escudeiro, o censor gay do jornal onde ela trabalha, o filme toma outros rumos e nos diverte a valer. Todos os pecados são perdoados quando observamos não o que pretendia ser feito, mas o que acabou se tornando: uma sincera brincadeira com o cinema de tensão e paranóia gestado pela Guerra Fria. Aqui travestido de leitura ditatorial, com uma perseguição a possíveis mandantes de assassinatos de nossos ex-presidentes de dar o sabor ideal das nossas mais suculentas telenovelas. 

Mais Notícias

Comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here

Nossas Redes

2,459FansGostar
216SeguidoresSeguir
125InscritosInscrever
4.310 Seguidores
Seguir
- Publicidade -