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“Anne Frank, Fragmentos do Diário” e os resquícios da sua sobrevivência

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“Anne Frank, Fragmentos do Diário” é uma montagem sensível sobre uma experiência marcada pela memória, pela empatia, pela palavra e pela humanidade.

A data mais significativa da porção da História que fez de Annelies “Anne” Marie Frank (1929-1945) um símbolo de resiliência, é 10 de maio de 1940. Nessa ocasião, os nazistas invadiram a Holanda. Anne, uma judia alemã de Frankfurt, estava morando lá, desde 1934. Foi parar lá para encontrar os pais, Edith e Otto, e a irmã, Margot, que viajaram antes, em busca de um refúgio para se salvarem da histeria antissemita da Alemanha de Adolf Hitler.  

Na primavera de 1942, o pai de Anne começou a instalar um esconderijo no anexo secreto da sua empresa, no nº 263 da rua Prinsengracht, em Amsterdã. Ele é ajudado pelos seus antigos colegas. Com a pressão crescente para que a população judia fosse segregada da sociedade, sendo removida para campos de concentração em terras germânicas, tornou aquele “quarto do pânico” um lar para a menina, para seus parentes e para mais quatro amigos. 

O espaço é muito apertado. Anne tinha de permanecer silenciosa, cercada de medo por todos os lados. Sua melhor amiga sempre foi a escrita. Em seu aniversário de 13 anos, foi presenteada com um diário. Fez daquele caderno um refúgio à parte. Certamente, ada letra no papel era um alento, assim alentou-se o quanto pôde até seu esconderijo ser descoberto a 4 de agosto de 1944.  

Lucia Cerrone e Marllos Silva resumem essa descoberta a uma solução cênica aparentemente simples, mas de resultado impactante na plateia, na montagem de “Anne Frank, Fragmentos do Diário”. Aliás, fazem uso da iluminação como chave para pontos de virada numa encenação pautada na sobriedade, lucidamente crítica, com Giovanna Sassi em estado de graça em cena.

Na ocasião em que o anexo onde estavam os Frank foi devassado, Anne e os seus acabaram no QG do Sicherheitsdienst, o serviço de inteligência da polícia de segurança alemã. Dali foram enviadas para o campo de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau, num trem de transporte de gado. A viagem demorou três dias. Umas mil pessoas estavam detidas ali.

Cerca de 350 pessoas que viajaram com Anne foram imediatamente mortas nas câmaras de gás. Anne foi enviada para o campo de trabalho para mulheres, com a sua irmã e a sua mãe. Otto acabou num campo para homens. A menina é transferida para um outro campo, Bergen-Belsen, para onde vai com a irmã. Em fevereiro de 1945, ambas morrem das consequências da com febre tifoide. 

Porém, esse desfecho trágico não está na montagem de Cerrone e Marllos. A peça se agarra aos 25 meses em que os Frank e mais quatro desterrados viveram escondidos no Anexo Secreto. O que nos é contado parte de testemunhos de Victor Kugler, uma das pessoas que arriscaram a própria segurança para proteger aquela família. Heitor Martinez, numa atuação madura, num trilho de composição psicológica coesa com o teatro moderno, dá alma e dor a esse observador, que sofre como nós, já apegados à menina, com o encantamento que Sassi gera. 

Resquícios do cotidiano daquelas pessoas, com Anne a discorrer sonhos de menina e o ardor por revistas de cinema, criam uma instância de humanidade plena num território pavimentado sobre o cimento do pavor. Sente-se temor ali dentro, mas em Anne existe esperança. É uma peça sobre a resistência, não sobre a derrota.

Após o final da guerra, o único sobrevivente do grupo foi o pai de Anne, Otto Frank, que retornou para Amsterdã e descobriu que o diário da filha havia sido salvo por Miep Gies, uma das funcionárias da empresa que havia ajudado a família durante a vida em esconderijo. Otto publicou o diário em 1947. Ele foi traduzido para mais de 70 línguas, além disso, vendeu 35 milhões de cópias e inspirou um filme magnífico, dirigido por George Stevens (1904-1975) em 1959.

O cuidado de Otto com as filhas, em suas inseguranças e vulnerabilidades, contrastantes com uma determinação de aço, são traduzidas, com empenho e lirismo por Willy Roessler, numa atuação “pequeninha”, que se agiganta de gesto a gesto. Sassi agiganta-se com ele, sobretudo em seu falar melífluo, mas pontuado de indignação e coragem. 

A releitura dos “Diários” dialoga diretamente com a reconstituição das cicatrizes holandesas da II Guerra inventariadas pelo cineasta Paul Verhoeven no longa-metragem “A Espiã” (“Zwartboek”, 2006). O filme pode ser visto na MUBI e é um complemento essencial ao (necessário) espetáculo. 

Serviço: 12 a 26 de Abril / Teatro Vanucci – Rua Marques São Vicente , 52 – 3º andar Loja 371 / Ingressos em Sympla

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