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‘Chatô e os Diários Associados – 100 Anos de Paixão’: o Carnaval de Stepan Nercessian

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Apesar de toda a reverência que tem pelos tropos da História, como disciplina do saber, “Chatô e os Diários Associados – 100 Anos de Paixão” não se propõe a ser uma aula, à la cuspe e giz, ainda que a gente saia do espetáculo mais bem informado do que entrou. Quem dirige é Tadeu Aguiar. Se você já viu aquilo em que ele põe a mão, seja para produzir/traduzir (como a delícia de “Baby, o Musical”) ou para dirigir (como “Quatro Faces do Amor” e o memorável “Oscar e a Senhora Rosa”), tem a noção de que o didatismo não é sua praça. 

Encantamento (ainda que crítico) é, certamente, o seu terreno. E a recriação de época de seu regresso aos palcos encanta e alerta. Assis Chateaubriand (1892-1968), fundador do império midiático que transformou a imprensa brasileira na criação múltiplos veios de comunicação, é o agente narrativo responsável pela movimentação em cena… as realistas e as metafísicas. 

O foco desse novo trabalho (com cara de superprodução, sempre viçoso), contudo, é o mundo que Chatô criou, em contraposição ao mundo (pleno) com que ele sonhou. Ou seja, ilusão e despertar se alternam na montagem, sob a iluminação melíflua de Paulo Cesar Medeiros. 

Aguiar não faz um verbete de Wikipedia. Não é um “ah… então Chatô nasceu aqui; depois, foi ali; daí, fez isso”. Não é a vertente estética do encenador. Seu teatro é “fenotípico”: ou seja, fala de pessoas, mas sob o vetor dos universos a que pertencem, numa radiografia de territórios.

Talvez por isso, a lembrança de um filme colossal (imperfeito, mas imperdível), “O Último Magnata” (“The Last Tycoon”, 1976), fratura exposta de seu diretor, Elia Kazan (1909-2003), belisque tanto nossa memória diante da montagem que Aguiar fez, a partir de um texto de Fernando Morais e Eduardo Bakr. O tal longa-metragem esquadrinhava a falência anunciada de um projeto de cinema de estúdio que não coube mais no momento em que a arte audiovisual ficou moderna. Os magnatas de Hollywood se achavam fariseus. A economia os atropelou.  

Chateaubriand modernizou o Brasil, sobretudo ao pavimentar a televisão entre nós. Só que o ethos (ultra)romântico dele não se conjugava, em nada, com o páthos da nação colonizada sob o cabresto da exploração que ele sonhou emancipar… e alfabetizar. Assim como o épico torto de Kazan prenunciava uma queda (de um empresário… e de um tempo), o carnaval que Tadeu Aguiar faz no palco é a crônica de um fim anunciado.  A diferença é que ele ressalta o legado deixado por esse fim. É um inventário das dádivas de Chatô.

Kazan tinha Robert De Niro. Aguiar tem Stepan Nercessian, o James Dean de Goiás, que tem a chance de estrelar, no palco, como Chatô, seu próprio “Assim Caminha a Humanidade”, no Brasil. Vulcão de carisma, ele entra em erupção no fogo da ironia, afim de poder estruturar um Chateaubriand mítico, calcado nos resquícios de seus feitos e nas apurações levantadas pelo já citado Fernando Morais numa biografia de leitura obrigatória.     

No audiovisual, Stepan é figura cativa desde 1969, data de sua estreia, numa arrancada já em posto de protagonista, à frente do cult “Marcelo Zona Sul”, dirigido por Xavier de Oliveira. Dali, passou a década de 1970 a participar defilmes inflamáveis, como “Rainha Diaba” (1974) e “A Gargalhada Final” (1979), tendo encarnado o Querô de Plínio Marcos (1935-1999) no “Barra Pesada” (1977), de Reginaldo Faria. 

Fez TV à pampa nas décadas seguintes e, a partir dos anos 2010, virou o divo do diretor Andrucha Waddington, que o transformou no Abelardo Barbosa do filme “Chacrinha: O Velho Guerreiro” (2018) e no Doutor Samuel da série “Sob Pressão”. 

Esse Stepan larger than life entope as coronárias do Claro Mais RJ de afetuosidade, ao compor um Chatô cheio de projetos, em confronto com a burrocracia estatal deste país. Entra em cena, ludicamente, como um espectro, a flutuar nas franjas do tempo, a fim de ajudar o aspirante a jornalista Fabiano (Marcelo Alvim, em delicada atuação) a conhecer uma nação para além das fake news.

Um Chatô cansado de guerra vai ajudar o rapaz a decifrar os códigos do amor, na relação com Juliana (Aline Serra). Cada passo dessa jornada tem Dona Janete, secretária do comunicador, como testemunha, deixando o rouxinol Sylvia Massari livre para soltar o gogó.

Hinos do amor estão em cena, sob a supervisão de Guto Graça Mello, na direção musical de Thalyson Rodrigues, responsável pelos arranjos vocais e instrumentais, com Diógenes de Souza. A direção de coreografia e movimento de Carlinhos de Jesus aquece a temperatura dionisíaca da cena. Nela, Stepan fica livre para ponderar sobre o Brasil que temos e divagar sobre o Brasil que queremos.A impecável produção de Naura Schneider (atriz que deveria ser convocada para atuar com mais frequência do que o habitual, por sua precisão inabalável) assegura uma suntuosidade a um painel de época capaz de nos elucidar muito sobre o Presente. É um estudo sobre o que almejamos ser… sobre o que nos derrubou na marca do pênalti… sobre um sonhador. Stepan nos ajuda a sonhar com lirismo, confete e serpentina.

Saiba mais sobre a peça!

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