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“O Último dia” apresenta microfísicas de uma relação tóxica

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Escolhido para abrir o 27° Festival du Cinéma Brésilien de Paris (7 a 14 de abril), “Querido Mundo”, filme que Miguel Falabella extraiu de sua peça homônima, traz um diálogo sobre violência doméstica no qual a expressão “caí da escada” é usada para justificar o arroxeado no rosto de uma esposa infeliz. A atendente do restaurante que a interpela, solidária, escolada naquele mesmo roxo, leva uma bronca do marido (que também é seu chefe) e ironiza: “A escada fala”. Tá ali sintetizada, para o audiovisual, a bestialidade que, agora, no teatro, ganha megafone no espetáculo “O Último Dia”, que impressiona pela precisão com que é encenado. 

Paulo Reis, seu encenador, é um ator… de voz melíflua… de gestual elegante…, que sabe, com muita destreza, traduzir o Mal, mesmo em poucas sequências, como se vê (num pertinente exemplo) no thriller “Em Nome Da Lei” (2016). A meticulosidade de algebrista que rege sua atuação e se faz notar em sua esgrima com a literatura, no (obrigatório) romance “Títeres”, é levada ao palco na forma de ele conduzir a tragédia – em âmbito afetivo… e social – da agressão de maridos contra suas companheiras. Tal barbárie o sexismo tenta manter impune.  

Uma jovem atriz em pulsante desempenho, Tainá Senna, conduz à plateia do Centro Cultural Justiça Federal, o CCJF (arena mais adequada impossível), a uma reflexão desafiadora a ditames conservadores de obediência e submissão, que conduz a intervenções jurídica. Ou, no mínimo, deveria conduzir. O problema é a agressividade alheia dar tempo para a ação da Justiça.

Esse senão… o risco que separa um tapa na cara de um feminicídio… é o que torna mobilizador o engenho de Reis na adaptação de um texto vindo do livro homônimo de Mariana Reade e Wagner Cinelli. Em suas páginas, lemos sobre os cinco tipos principais de violência doméstica e familiar contra a mulher: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. Não raro, esses atos ocorrem em conjunto. 

Essa sinergia da destruição se faz presente… e ruidosa… em “O Último Dia”, cuja idealização é de Ana Capella, numa dinâmica que evita o sensacionalismo a fim de celebrar a relevância da escuta. Na dinâmica do “menos é mais”, a cenografia de José Dias é das mais sintéticas, a jogar com um fundo opaco e a presença de quatro cadeiras. Cada ocupante se levanta delas, toma posto em cena, solta o verbo… às vezes interage com colegas… regressa, senta e deixa a Caixa de Pandora aberta.

A iluminação, numa aeróbica de Brisa Lima, rege o compasso do suspense a partir da dinâmica de fala… ora plenamente realista, “dentro” da trama; ora expositiva, numa troca direta com o público… dessas quatro pessoas. Tainá é o alicerce: vive Luana, bancária que desce ao Inferno ao ser subjugada numa relação tóxica, daquelas que usa a palavra “desculpa” como Mertiolate.

Luana casou-se com um contador que brilha num escritório de Advocacia, sonhando com o Direito. Para o rapaz (vivido por Eduardo Hoffmann na raia do assombro), passar o resto da vida preso é sopa perto do fardo de ser traído e abandonado. Daí bater em Luana sempre que considera a metragem dos vestidos dela inferior ao que dita a geometria do recato (leia-se “do controle”). Calça-se num discurso de posse, na objetificação do feminino. Pasta e rosna.  

A mãe de Luana (vivida pela sempre eficaz Ana Carbatti) e sua amiga, Isabel (Julia Tupinambá, impecável), farão de tudo… de formas diferentes… para deter a mão que esmurra para depois afagar. Ao longo e após o nascimento de uma criança, a bebê Maria Tereza, os murros se intensificam naquele lar. Os pedidos de perdão (após cada surra), também. 

O ciúme é o disfarce para uma estrutura de submissão que cresce como metástase. Cada célula que se infecta é um convite a um assassinato. Essa progressão aritmética é descortinada no palco como um alerta… um clamor de “Basta!”. O debate, urgente, é estruturado com solidez. A concepção artística por trás dele é igualmente bem cimentada.  

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