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Ruas da Glória faz um apanhado sobre a resistência moderna do cenário queer

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Felipe Sholl tem um currículo mais do que extenso como roteirista, premiado há 15 anos por suas autorias. Não é um currículo pequeno, muito menos desprovido de qualidades: Histórias que só Existem quando LembradasHojeM8ManasCampo Grande(Des)controle e muitos outros. Já entre suas assinaturas de direção, esse Ruas da Glória é apenas o segundo longa-metragem; o amadurecimento entre o anterior, Fale Comigo, e o novo é cristalino. O tratamento estético, a pressão dramática empregada aqui, as possibilidades que se abrem com sua nova direção, são detalhes de um cineasta em crescimento, que alcança através de situações particulares a universalidade necessária para a comunicação mais irrestrita. 

Poderíamos chamar Ruas da Glória de uma espécie de Baby carioca, mas o filme de Marcelo Caetano é um painel mais setorizado do universo LGBTQIAPN+, ainda que seja igualmente uma história possível a tantos jovens. O filme de Sholl, além de mais cruel com seu protagonista, de ter uma visão menos edulcorada a respeito das relações humanas, transforma os tipos que filma de maneira um pouco mais definitiva. Como existem muitos rapazes como Gabriel em rota de colisão com seus fantasmas mais recentes mas também com os mais enraizados, existe sim uma maneira subjetiva de se envolver com o que é contado. Ao encontrar os sinais de rejeição, de uma nova relação ou da vida que insiste em negá-lo, o protagonista não os percebe e passa a viver como já vimos tantas vezes: à margem de si. 

Ruas da Glória também é um filme sobre encontrar-se, antes da última descida ao inferno. E em como tais personagens aos poucos se reconhecem em suas mútuas jornadas de ausências. É uma voz que ecoa ao longo do filme sem se deixar levar pelo que seus personagens teriam para contar, com apenas um debruçamento, mas que se percebe ali, no clamor de quem já viu tal história se repetir tantas vezes, a identificação da repetição de padrões. De maneira nunca verbalizada, ao redor de Gabriel nasce uma redoma protetora que vai se lançando na sua direção, tentando resgatá-lo e trazê-lo de volta das trevas. As experiências em tela, que são também reflexo de momentos vividos pelo autor, representam uma realidade cujo retorno não é garantido. 

Não há como negar a pulsão de morte pelo qual Gabriel se vê enredado desde sua migração para o Rio de Janeiro. Em luto familiar, ele chega na conhecida como cidade maravilhosa com a fuga como rastro; aqui, irá deparar-se com essa pulsão a cada nova decisão, desde o encantamento por Adriano até a descida ao submundo da boemia carioca, repleta de bares, garotos de programa e possibilidades diárias de violência. Ele se deixa seduzir, e Ruas da Glória acaba por mergulhar nesse personagem autodestrutivo, que ouve os chamados de luz mas não consegue se identificar com outra coisa que não a escuridão. O filme não julga as práticas que estão em tela, inclusive algumas delas praticadas pelos tipos positivados; apenas deixa claro que o momento do protagonista é propício a se perder no horror. 

Além da estrutura narrativa, Ruas da Glória também representa esse crescimento de Sholl como realizador, tanto no que concerne às texturas que ele consegue nos momentos onde o personagem se comunica com o passado, quanto na ligação com o presente. A fotografia do seu parceiro Léo Bittencourt (de Cidade Pássaro) angaria profundidade às cenas de sexo, ao perambular pela Cinelândia noturna, e mesmo ao estado de espírito dos protagonistas, que são tragados pelo trauma e pelo vício, um no outro inclusive. Sholl radiografa a relação entre essas pessoas e a cidade, entre seus corpos em fricção, nos rasgos que causam uns nos outros e nas feridas que provocam em quem se quer bem, de uma maneira verdadeiramente dolorosa. 

Com escolhas bastante acertadas na preparação desse grupo de atores, que nunca deixam de funcionar em suas interconexões, o peso que seus três atores centrais imprimem marca a produção. A estreia de Diva Menner no cinema é uma crescente de provocação, oferecendo possibilidades diversas a uma figura ambígua que se torna uma verdadeira matriarca ao final, com uma performance de ‘Nessun Dorma’ inesquecível, que aproveita sua voz privilegiada. Alejandro Claveaux tem o maior momento de sua carreira em uma interpretação marcante, cheia de atitude. Mas é em Caio Macêdo que estão todos os olhos desde o início de Ruas da Glória, e o ator de Pedágio oferece um daqueles momentos que moldam uma trajetória; no futuro, o ator verá o filme como um divisor de águas, a partir de sua hipnotizante entrega. 

Um apanhado sobre a resistência moderna do cenário queer, onde os perigos da noite e da cidade são tão letais quanto a decadência emocional, Ruas da Glória completa seu arco da trajetória de um protagonista fragilizado pelas derrotas que se ergue como um clamor da vida. Um último plano simples, mas carregado de poder narrativo e imagético, mostra a ressurreição de um homem que poderia ser cada um de nós, doentes de nós mesmos em nossas tentativas de cura. Que seja ao menos libertador para alguém, mostra que essa possibilidade está ao alcance de todos. 

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