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‘O Funcionário Que Pede Para Não Ser Identificado’ é um curso hilariante de Estética que desafia a burrocracia

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Tendo como aríete o figurino de Maika Mano e Penha Maia (o mais criativo deste primeiro quadrante de 2026, nos palcos), “O Funcionário Que Pede Para Não Ser Identificado” é um curso relâmpago de Estética e Cultura de Massa, onde o riso é a ementa fundamental. Seu foco é o fazer artístico, não da ótica da criação em si, mas da burocracia que o esgana. 

Quatro rios de águas caudalosas, Inez Viana, Simone Mazzer, Thalma de Freitas e Yasmin Gomlevsky se cruzam numa pororoca lúdica, de canto, dança, celebrando a busca pela transcendência. Uma nau chamada Michel Melamed cruza cada afluente, qual um desbravador da linguagem, praticamente um argonauta do verbo.  

Depois de dirigir esse zé-pereira (ator, músico, dramaturgo, diretor) na minissérie “Capitu”, de 2008, o realizador Luiz Fernando Carvalho definiu Melamed como um falador, “ou melhor, um fala-a-dor, que vai da trova à rapsódia”. Há algo de muito doloroso na massa simbólica da qual MM tira a matéria-prima de “O Funcionário Que Pede Para Não Ser Identificado”. Ela passa por modulações que encapsulam e limitam a liberdade do artista, seja na forma das papeladas da “burrocracia” dos editais, seja na necessidade contínua da autossuperação, no afã de criar o que não se vê. 

O tal “fala-a-dor” que nos apresenta esse debate é um dos artistas mais originais que este país já viu, dono de uma gramática particular, que fez de “Regurgitofagia” sua pedra fundadora. Ao redor da primeira década deste século, até a alvorada dos anos 2010, a trilogia “Dinheiro Grátis” (sua obra-prima), “Homemúsica” e “adeusàcarne” só fez aperfeiçoar as orações (in)subordinadas de um subjetivo cheio de predicados. 

Melamed entra em modo Bechara e brinca com o português em “O Funcionário Que Pede Para Não Ser Identificado” até esgotar as figuras de linguagem mais conhecidas, da metonímia à catacrese. Aliteração, faz aos quilos. Onomatopeia, aos montes, ao ponto de estraçalhar o “Take A Look At Me Now”, de Phil Collins, e outro hit Pop, num duelo de sílabas.    

Seu quarteto genial de estrelas brinca com o colorido das roupas, deleitando-se no que há de mais dionisíaco na cenografia (e adereços) de José Cohen e Lucila Belcic, sob a luz lívida de Adriana Ortiz, como se fossem personagens de Fantasia (1940), de Disney. A música (que o próprio MM compôs), funciona como um arranjo de Leopold Stokowski (1882-1977), maestro que transformou Mickey em aprendiz de feiticeiro no clássico dos anos quarenta. Ou seja, faz da cena um fractal de cor, numa harmonia plena do talento de quatro grandes atrizes em fina covalência.

A magia que se vê nesse filme não cabe nas engenhocas de “O Funcionário Que Pede Para Não Ser Identificado”, mais próximas dos Tempos Modernos, de Chaplin. A narrativa de Melamed se passa em uma repartição lúdica chamada Setor de Registro e Produção de Obras Artísticas, onde ideias precisam ser aprovadas para existir. 

Os cargos por lá atendem por nomes como Coordenadora de Tema e Gerente de Gênero, o que faz lembrar a HQ lusitana “O Museu Nacional Do Acessório E Do Irrelevante” (1998), de José Carlos Fernandes. Lembra-se de muita coisa (do Púcaro Búlgaro, de Aderbal Freire Filho, ao cinema de Roy Andersson) vendo Melamed, certamente, revirar conceitos da Escola de Frankfurt e da Bauhaus na reprodutibilidade (jamais técnica) da nossa gargalhada.     

Rir é o imperativo categórico de uma dramaturgia nada kantiana sobre uma funcionária dessa tal bolandeira artística incapaz de criar algo próprio, que passa a rejeitar sistematicamente os projetos alheios — até conceber sua grande e definitiva ideia. Nesse enredo, Melamed passa o kitsch e o brega no liquidificador dadaísta e põe um Adorno na agonia de viver de arte num país assolado pelo conservadorismo. 

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