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“O Beijo no Asfalto” retorna aos palcos, com Edson Celulari, Luísa Arraes e Eduardo Sterblitch

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Há textos que atravessam o tempo. Não porque envelhecem bem, mas porque a realidade insiste em alcançá-los. Escrito por Nelson Rodrigues há 65 anos, “O Beijo no Asfalto” volta aos palcos em uma nova montagem dirigida por Marco André Nunes, idealizada e produzida por Rafael Raposo, reafirmando a impressionante atualidade de uma obra que antecipa discussões sobre manipulação da informação, linchamento moral, espetacularização da notícia e o poder devastador das narrativas.

A montagem reúne um elenco de grandes nomes da cena brasileira, liderado por Edson Celulari, Luísa Arraes e Eduardo Sterblitch, ao lado de Nina Tomsic, André Mattos, Ernani Moraes, Vinícius Teixeira, Pedro França, Laura de Castro, Fernanda Dias, Alcides Peixe, Danilo Canindé e Quiga Camarate.

“O Beijo no Asfalto” foi escrito por Nelson Rodrigues há 65 anos.

Escrita em 1960, a peça foi encomendada por Fernanda Montenegro para o histórico Teatro dos Sete e estreou no ano seguinte, tornando-se uma das obras fundamentais da dramaturgia brasileira. Ao transformar um gesto de solidariedade em tragédia pública, Nelson Rodrigues, certamente, construiu um retrato contundente de uma sociedade movida pelo preconceito, pelo voyeurismo e pela necessidade de condenar antes mesmo de conhecer os fatos.

No centro da narrativa estão Arandir (Eduardo Sterblitch) e Selminha (Luísa Arraes), um casal cuja vida é completamente transformada depois que ele presencia um atropelamento e atende ao último pedido da vítima: um beijo antes da morte. Mas, o gesto, essencialmente humano, é imediatamente distorcido por um repórter sensacionalista e por interesses da polícia, desencadeando uma sucessão de mentiras, suspeitas e julgamentos públicos que destroem sua reputação.

Completando esse núcleo dramático está Aprígio (Edson Celulari), pai de Selminha e sogro de Arandir. Figura central da engrenagem emocional criada por Nelson Rodrigues, Aprígio carrega ressentimentos, silêncios e desejos reprimidos que tornam ainda mais complexa a tragédia vivida pela família, conduzindo a história a um dos desfechos mais contundentes do teatro brasileiro.

Sem buscar atualizar o texto artificialmente, Marco André Nunes faz justamente o contrário: deixa que a própria obra revele sua contemporaneidade. Em tempos de redes sociais, fake news, cultura do cancelamento e julgamentos instantâneos, “O Beijo no Asfalto”, surpreendentemente, parece ter sido escrito para o presente. A encenação aposta na força do elenco e na precisão dramatúrgica de Nelson Rodrigues para colocar o espectador diante de uma pergunta que permanece urgente: até que ponto uma mentira repetida pode destruir uma vida?

A montagem aposta na potência da palavra, na densidade das relações humanas e na atualidade da obra para apresentar uma leitura que dialoga tanto com o legado de Nelson Rodrigues quanto com os dilemas do Brasil contemporâneo. Com cenário de Aurora dos Campos e figurinos de Ronald Teixeira, o espetáculo reafirma a permanência de um texto que, mais de seis décadas após sua estreia, continua inquietando o público ao discutir ética, desejo, preconceito, poder e a fragilidade da verdade diante da fabricação de narrativas.

SERVIÇO
Temporada: 16 de julho a 3 de agosto
Temporada: De quinta a segunda-feira
Horário: 20h
Local: Teatro Glaucio Gill – Praça Cardeal Arcoverde s/nº, Copacabana.
14 anos. 80 min. 

Rota Cult
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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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