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Uma Vida sem Ele: Isabelle Huppert vive mulher que se manter nas sombras

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 Uma Vida sem Ele, produção francesa dirigida e roteirizada por Laurent Larivière, não é um filme de ‘plot’, tampouco é um título que seja arraigado no naturalismo tradicional francês. Podemos dizer que estamos diante de uma ideia de ‘estudo de personagem’, onde adiciona-se um tempo de construção de eventos. Uma linha do tempo sem começo, meio e fim, onde nos aproximamos de Joan Verra e de acontecimentos ao longo de mais de 40 anos, tão narrados quanto observados pela própria. Não é uma digestão fácil, mas estima-se recompensadora ao longo de uma jornada do qual tateamos em algo que não parece o escuro, mas é.

Uma Vida sem EleNessa escuridão improvisada, o espectador mergulha em muitos passados de Joan, até chegar a um presente igualmente desconcertante, somente lá ao fim de seus 100 minutos. Até lá, idas e vindas em tempos onde tentamos descortinar a solidão de uma mulher que parece escolher estar em descompasso com seu redor. Joan teve um grande amor, tem um filho que a ama, mas ainda assim, como diz o título em português, vive sem. Sem adentrar o universo do suspense, Uma Vida sem Ele não é uma produção que possa ser lida através do que se está vendo; somente com o término do todo, cada peça fará sentido em um quebra-cabeça que não parece existir.

O mais curioso é que Uma Vida sem Ele não vende uma estranheza, ou um lugar de descoberta de seus signos. Joan amou Doug, pariu Nathan e editou Tim, tudo em graus muito menos elaborados do que a união dos fatores a determina. Nossa descoberta está nos detalhes, que une cada uma dessas personagens, que é a mesma; talvez essa seja uma das ideias do roteiro de Larivière e François Decodts ao radiografar essa figura, mostrar o que escapa a essa multiplicidade. O que, no decorrer dos tempos, tornou essa mulher quem ela é, que é tão senhora de si quanto também alicerçada pela sua história.

Além disso, Joan é vivida por Isabelle Huppert, uma atriz que na verdade há muito dispensa apresentações, mas que encontra no filme um veículo inesperado para uma elaboração que tem sido pouco oferecida a ela. Podemos dizer inclusive que essa escalação é quase uma ferramenta do roteiro, porque Joan vai desnudando suas informações, sua caudalosa vivência, sem que conseguimos captar a princípio sua origem. Isso advém da própria Huppert, que dá vida a mulheres de extrema potência, com um nível de autoridade elevado, e aqui despe essa ideia que o cinema tenta aprisionar em sua pele.

Nesse sentido, tudo que é revelado em cena é ainda mais surpreendente por estar nos olhos de Huppert, em fragilidade palpável. É desse mesmo material que Uma Vida sem Ele apresenta seu campo de humanidade, uma mulher que viveu de sua fabulação particular; sua profissão, editora literária, não poderia fazer mais sentido. Ela está absorta em uma realidade que a equipara às suas raízes, e a cena onde ela encontra e posteriormente lê uma carta da mãe define não apenas a mulher que a colocou no mundo, como também reflete em si. Revela-se assim o quanto as mulheres precisam lidar com as perdas, e como cada uma delas lida com esse conceito, com maior ou menor liberdade – sempre doloroso.

Com a adesão do corpo e do rosto de Huppert, Larivière monta seu conto sobre uma mulher que escolhe constantemente manter-se nas sombras, para que seus fantasmas eternos não desequilibrem seu estado. Enquanto o título original traduz sobre quem estamos debruçados, a nossa versão joga luz sobre seu estado, permanente. Como se ao olharmos bem de perto como o filme propõe, aos poucos se revelassem os segredos de Joan, e os reais motivos pelos quais ela é como é. Depois de reencontrar-se com o passado, essa mulher parece pronta para um futuro que nunca teve.

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