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“Simplesmente eu, Clarice Lispector” traz Beth Goulart em estado de graça

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Perto do coração selvagem que pulsa no peito de cada um de nós, residem a desatenção e a aspereza, sentimentos fabricados pela pressa, pela necessidade de sobrevivência e por todas as sazonais acomodações que servem de satélite ao verbo “viver”, vocábulo pontiagudo que Clarice Lispector (1920-1977) virou do avesso em sua escrita repleta de autogeografias. De Tchetchelnik – a aldeia da Ucrânia onde nasceu – ao Recife (PE) – para onde sua família imigrou, abrasileirando seus nomes-, além de menções a Copacabana, o mapa-múndi de suas andanças deixa rastros em sua escavação do desamparo. Seu repertório literário, certamente, comporta um garimpo sinestésico que as palavras nem sempre são elásticas o suficiente para conter. Aliás, Contenção é o termo que serve de astrolábio ao espetáculo sobre a autora responsável por marcos da prosa, como “Água Viva” (1973). Sua estrela, adaptadora e diretora – uma Beth Goulart em estado de graça – põe a teste a extensão que a língua portuguesa e as aeróbicas gestuais das artes cênicas dão à coqueluche existencialista de uma literatura de abismos. 

Poucos meses depois do deslumbre pocket “A Hora de Clarice”, encenado na Glória com o Duo Bevilacqua Assumpção, sob a direção de Luiz Fernando Carvalho, Goulart retorna ao monólogo de outrora, no qual monta um puzzle com as personas de Lispector. Algumas brotam de seus depoimentos (incluindo o divertido desabafo sobre o sotaque eslavo ao falar “aurora”), outras nascem de fragmentos de sua obra. Tem algo de “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” e engramas dos contos “Amor” e “Perdoando Deus”. Cada um com seu cada qual oferece à atriz a chance de devassar modos de ser e de estar, numa celebração do feminino.  

Sob a supervisão de Amir Haddad, Beth deleita-se com a progressão aritmética e geométrica de gestos construídos em fricção com a direção de movimento de Márcia Rubin. Cada espasmo e cada desabrochar de braços – por vezes na troca do figurino idealizado por Beth Filipecki – é um abraço que abriga a plateia num estudo sobre a solidão, o abandono e os hiatos sem nome que nos transbordam. A iluminação de Maneco Quinderé é a medida sem algarismos desse tal transbordamento, numa explosão apolínea de luz. 

A trilha sonora original de Alfredo Sertã (numa colcha de Erik Satie, Arvo Pärt e Astor Piazzolla) surpreendentemente embalsama a autópsia em corpo vivo de um querer desobediente. O cenário elegante, assinado pelo ás Ronald Teixeira e por Leobruno Gama, é a jaula que tenta prender esse bicho com raiva de todas as convenções que engessam quase tudo na gente, menos o espírito, que esnoba o imperativo categórico da ordem em prol da desarmonia. É dela, do desarmônico, que brota a literatura, uma arte com a qual Clarice nos protegeu de temporais. É do literário que Goulart extrai o devir cênico de uma biografia que não se atém a fatos, qual fosse um verbete de Wikipedia, preferindo sensações e gemidos, num sonar epistemológico. 

A ciência a que Clarice se vincula é a microfísica do assombro. Nos sustos de seus parágrafos, a letra impressa por sua imaginação nos dá um lispectorante que ora nos cura com um choque de realidade, ora causa contraindicações ontológicas. É o preço a se pagar por um idioma como o Português ter um titã do que quilate dela em suas livrarias. É o preço a se pagar por uma atriz da destreza de Goulart desbravar esse oceano na caravela da encenação.    

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