- Publicidade -

Extermínio: O Templo dos Ossos Uma ambição intransigente e peculiar de Danny Boyle

Publicado em:

Fazem pouco mais de seis meses que Extermìnio: A Evolução estreou nos cinemas do mundo, mostrando porque 2025 foi mais um grande ano para o horror no audiovisual. Com o retorno de Danny Boyle à série que o revelou, o que vimos foi uma produção que não abria mão do horror e suspense que caracterizou os capítulos anteriores, adicionando uma camada maior de afeto que já estava nos originais. O que vimos então era uma jornada que ia além da sobrevivência, conectando-se ao mais puro conceito de família. Extermínio: O Templo dos Ossos parece funcionar como dois filmes em um, e acreditem: isso não apenas é lido de maneira acertada, como divide o filme em dois momentos distintos, que dialogam pela necessidade ancestral do encontro, da divisão e do partilhamento, enquanto sociedade – aqui, ainda mais decadente moralmente. 

Isso está impresso nos personagens do filme anterior que retornam, Dr. Kelson e o menino Spike, literalmente os protagonistas das duas produções. Enquanto o primeiro parece desencantado com as possibilidades de não conseguir encontrar outro além em seu desejo de troca, o segundo exerce o papel do horror que se aproxima de nós, e cuja tentação é substituída por uma fagulha de importância na vida de outrem. Extermínio: O Templo dos Ossos, já mergulhado nas próprias quimeras, observa esses dois personagens a partir da mesma vertente: como absorver tamanha melancolia que está intrínseca à solidão? A respostas está nas soluções encontradas por ambos para uma sobrevivência menos solitária – ceder ao impulso do encontro, ainda que nada esteja exatamente no lugar que deveria. 

Paralelo a essas duas existências errantes, Extermínio: O Templo dos Ossos acompanha exatamente o grupo que encerrou o filme anterior, uma espécie de grupo de anarquistas assassinos no meio do horror generalizado. Todos chamam Jimmy, e Spike é iniciado entre eles logo na abertura, e é através da experiência de um dos personagens centrais que conhecemos mais uma enorme interpretação de Jack O’Connell. Depois de arrepiar em Pecadores, o jovem ator mostra que tem potencial ilimitado para sociopatas assombrosos – ou assombrantes. Ele acaba por se tornar um contraponto perfeito a ambos, em meio a uma caçada fanática que revela os lastros de realidade transpostos para seu revestimento fantástico. Ao contrário dos outros personagens, o líder dos Jimmys é desprendido de qualquer propósito apaziguador, e independente de suas inseguranças, o tipo representa o que de pior o fanatismo pode angariar. 

Esteticamente, o filme encontra uma ponte com o filme anterior, mas oferecendo uma visão menos urgente a respeito dos eventos. É a mão de Nia Dacosta (de A Lenda de Candyman), que reconfigura o objeto filmado para uma porção menos fatalista. Dito isso, não convém esperar que Extermìnio: O Templo dos Ossos caminhe por outra direção, porque houve troca no comando da fabricação das imagens. Ainda dirigido por Alex Garland (de Men), o filme consegue oxigenar uma produção que tratava seu universo de maneira refrescante; o que acontece nessa nova parte mantém os códigos recém adquiridos, sem deixar de amplificar suas possibilidades. É cinema de horror, que impressiona pela sua virulência mecânica, mas também embala seus personagens de deveres e consequências, aprimorando o que já estava refinado. 

Estão em cena contradições que habitam esse capítulo específico, e outros que abrangem as possibilidades menos óbvias. Extermínio: O Templo dos Ossos se concentra, por exemplo, em um olhar alternado entre a tensão latente perpetrada pela relação simbiótica desenvolvida entre o dr. Kelson e seu eleito, Sansão, um zumbi em particular que ele tenta tratar de inúmeras formas. Spike também não consegue predeterminar seu olhar para a figura que o adota dentro do grupo de Jimmys; quanta confiança é necessária para depositar em estranhos que podem lhe matar? O próprio ritmo da produção, defendido pela montagem de Jake Roberts (indicado ao Oscar por A Qualquer Custo), passeia por lugares apartados e que precisam encontrar conexão; o complexo trabalho de Dacosta e Roberts defende uma produção que consegue intercambiar suas decisões. 

Mais uma vez, Ralph Fiennes (de Conclave) e a revelação Alfie Williams, ainda têm certeza absoluta que estão diante de um épico histórico. Isso beneficia a produção e mostra uma Dacosta no caminho do autoconhecimento, entendendo as imagens que produz também a partir de quem as encena emocionalmente. O elenco, dessa maneira, corresponde de maneira coesa ao que é proposto no coletivo; a proposta é nos fazer importar com tudo o que vemos, a chamada conexão emocional. Os melhores filmes de horror mostram que isso é possível, mas essa característica é alcançada pela dedicação de um elenco inteiro unido na vontade de entregar o resultado mais uniforme possível. 

A luz de Sean Bobbitt (indicado ao Oscar por Judas e o Messias Negro) representa também uma parte das contradições descritas que movem o cerne de Extermìnio: O Templo dos Ossos. Tanto está nela uma maneira sutil de aproximar-se dos valores emocionais que o filme apregoa, assim como consegue ser bruxuleante se assim for pedido, como na cena da “apresentação” do dr. Kelson para uma plateia embevecida. Essa cena e as consequências literalmente seguintes a ela, são a prova de que o título possui predicados superiores ao tradicional cinema de horror. E que 2026 começa impressionando o gênero, mais uma vez. 

Mais Notícias

Nossas Redes

2,459FansGostar
216SeguidoresSeguir
125InscritosInscrever
4.310 Seguidores
Seguir
- Publicidade -