- Publicidade -

O Primata aposta nas sensações mais primordiais de medo

Publicado em:

Quando eu era criança, George Romero lançou um filme que fez sucesso no Brasil graças às muitas incursões das chamadas de seu lançamento em ‘home vídeo’ nas propagandas de tv: Instinto Fatal, um filme que assisti algumas vezes. Na telinha, um macaquinho apaixonado pelo seu dono tetraplégico adquire um ciúme doentio, o que irá levá-los a inúmeros crimes. Quase 40 anos depois, O Primata reorganiza o mito me torno da aproximação secular entre o homo sapiens e os símios, sem precisar aproximar-se das questões científicas promovidas por algo como Planeta dos Macacos; aqui, há “somente” a ancestralidade do mal físico que acomete os animais, e que os deteriora. Parece pouco, num mundo cercado de possibilidades técnicas a explorar, mas um filme como esse dá a marcha a ré necessária para que o Cinema possa crescer em meio ao suficiente. 

De cara, O Primata diz a que veio, em uma cena de suspense crescente em meio à escuridão, que termina em um momento gore dos mais sinistros recentes. Para quem poderia imaginar que esse mergulho mais profundo no horror explícito era apenas uma menção inicial para ganhar os fãs do gênero, mas que esse aperitivo estaria em lugar único, tem a prova dos 9 menos de meia hora depois, quando nova morte explícita é exposta. O detalhe é que tal cena em qualquer filme seria sutil sem qualquer explicação maior, porque é uma cena que, digamos, já vimos outras vezes; a direção, no entanto, nunca deixa de nos convidar ao horror, como visto. E é dessa forma que vamos nos situando em uma produção cujos maiores pontos estão justamente na capacidade de ir sempre um pouco mais além no possível. 

O filme tem uma trama até bem básica, o que chama a atenção é mesmo o desenvolvimento da ação, da criação dos planos, dos objetivos que o filme quer alcançar através da imagem. A direção fica a cargo de Johannes Roberts, alguém cujo currículo ostenta obras atacáveis por uns e idolatrada por outros (a cinessérie Medo Profundo Os Estranhos: Caçada Noturna – não confundir com esses novos, esse é uma curiosa continuação de 2018). Aqui, no entanto, Roberts carrega para si o melhor que aprontou em seus títulos outros, incluindo uma obsessão por filmar o horror submerso; no segundo Os Estranhos tem uma sequência muito boa passada em uma piscina. Aqui, tudo parece estar cercado d’água, a começar pela ação ser passada no Hawaii, culminando em um clímax sem fim, mais uma vez, em uma campo aquático. 

O filme acompanha o trauma de uma família que ainda sente o falecimento de sua matriarca. As duas irmãs se afastaram, e o pai acabou por se isolar na sua área de atuação – ele é escritor. O elo de ligação entre os três é o chimpanzé da família, com a qual a mãe desenvolveu estudos de linguística, realçando no animal suas características dóceis com um material que estimula a comunicação entre eles. Só que Ben acabou de ser infectado pela ‘raiva’ assim que brigou com uma espécie de esquilo da floresta, e sua personalidade não apenas fica alterada. Ou seja, o roteiro de O Primata eleva o caráter da doença até o seu limite, e o que o espectador tem é uma máquina assassina capaz de pensar e se comportar com tanta astúcia quanto qualquer outro ser humano. 

Apesar dos clichês na construção dos personagens e de suas relações, sejam as familiares, as amorosas e mesmo as rivalidades, tudo caminha exatamente dentro do esperado, as intenções de O Primata, como já dito, é apostar no que o olho vê, e nas sensações mais primordiais de medo. O banquete que se segue, então, é regido pela montagem dessa angústia crescente, e na finalidade de cada cena, que é aumentar as doses não de violência, mas de incredulidade das ações. Não à toa, nos pegamos boquiabertos constantemente a qualquer nova decisão de Ben, que perde gradualmente todos laços que possuía com quem os amou desde pequeno. Isso também realça com clareza as manifestações de solidão e abandono que a protagonista causou ao se afastar da família, que gerou, metaforicamente, na fúria incontrolável do único habitante da casa que pode ser indomável por sua própria natureza. 

Em tempos de muitas estreias do gênero, fica a certeza de que O Primata é diversão escapista que pega o público pelos olhos e pelos sentidos. Às vezes, o que um filme do gênero precisa não é necessariamente beleza e posicionamento estético (como o belo Extermínio: O Templo dos Ossos), mas de uma força mais óbvia. Para quem é fã do horror mais tradicional, que torcem o nariz para as novas evoluções ou para lugares menos diretos, Roberts entrega o melhor prato que tais iguarias são capazes de preparar. Em sua visceralidade, consegue envolver em torno do afeto familiar ameaçado por algo ao mesmo tempo externo e interno; já se a busca é por algo mais orgânico e intrínseco às ideias, encontrar-se-á algumas boas ideias difusas ali. Mas, em primeiro plano, o que temos é esse material de impacto de imagens, sons e violência. 

Mais Notícias

Comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here

Nossas Redes

2,459FansGostar
216SeguidoresSeguir
125InscritosInscrever
4.310 Seguidores
Seguir
- Publicidade -