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Caminhos do Crime narra com sobriedade e elegância uma saga policial adulta e absolutamente sedutora

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Uma criança criada entre reformatórios e lares adotivos. Uma mulher negra entrando na meia idade. Um detetive policial veterano e honesto, em tese, essas pessoas não guardam semelhanças entre si, mas além dos destinos delas se cruzarem, aos poucos o roteiro de Caminhos do Crime os fará tão próximos, que suas trajetórias se confundirão. Utilizar clichês para descrever tal estreia (como ‘filme coral’) é diminuir as qualidades múltiplas de um filme surpreendente em tudo que se propõe, uma trama policial onde os personagens leem seus espaços e contribuem para a decadência moral e geográfica dos mesmos. Em escala épica, o filme acompanha com atenção três núcleos de protagonismo de pessoas que estão em um beco sem saída para as próximas realizações, em momento de decisão a respeito de continuar ou não em ritmo de fracasso. 

Esse é o terceiro longa metragem de Bart Layton, que em sua estreia chocou a todos com o documentário O Impostor, lançado há 14 anos atrás. Caminhos do Crime deveria ser um passo definitivo em sua carreira, levando em consideração o tanto que é apresentado aqui. Em uma Los Angeles longe de cartão postal, que ostenta em suas ruas os sintomas doentios pelos quais seus personagens se acometem, o roteiro adaptado também por Layton transporta das páginas uma tara por descobrir as bifurcações morais de seus personagens. Estão todos defronte a limites flexíveis de moralidade, mas que encontram-se em processo de descaso social que os empurra na direção de uma radicalidade de confrontação. 

Caminhos do Crime narra com sobriedade e elegância uma saga policial adulta e absolutamente sedutora. Desde a abertura com o plano de cabeça para baixo, fica claro que estamos diante de um título superior ao que se imagina. Assim como sua aparência sugere, a leitura desses personagens e a qualidade da maneira como eles são lidos é a pauta em cena. Layton eleva o seu trabalho com incontestável carinho dispensado aos seus tipos, em uma observação aguda do esfacelamento de sonhos em uma cidade como Los Angeles. Ao contrário de Uma Linda Mulher, filme que possui uma espécie de oráculo informal que pergunta “qual o seu sonho?, aqui todos eles se realizam”, quanto mais o filme mergulha com intensidade entre aqueles personagens, mais fica claro que todos eles já ultrapassaram a data de validade para o desejo. 

Suas existências não são apenas mapeadas até a colisão, mas com a aparente diversidade com que seus históricos são moldados, aos poucos encontramos mais do que intersecção entre si, chegando à bela sequência em que os olhos pregam-nos peças ao confundir (propositadamente) os corpos de Chris Hemsworth e Mark Ruffalo, um dos mais belos momentos de um título cheio deles. É essa sequência que torna explícita esse quebra-cabeça criado entre seus integrantes, para ditar os rumos que acompanhamos: embora integrem na totalidade, tais trajetórias estão constantemente marcadas pela derrota, pela ausência e por uma negação social de diferentes ordens. Não há espaço para o trio central que não esteja claramente ligado à subserviência de seus valores, tragados por uma máquina de moer que os impede de provar qualquer valor que ainda lhes resta. 

Existe violência no que a câmera de Layton filma, e ela não está expressa por um caráter explícito, mas pelos símbolos impressos em seus detalhes. São closes intrusivos em momentos de fragilidade, e isso não está fornecido apenas nas tomadas dos protagonistas; o rosto de Halle Berry prestes a receber maquiagem, Ruffalo sentando na privada para urinar, são tão eloquentes quanto a mão prestes a ser ameaçada de um entregador. Caminhos do Crime, como os melhores títulos de um gênero que não se renova automaticamente, filma seus eventos com a devida importância e com um respeito que não é conseguido naturalmente. Seu autor nos convida a ter empatia por cada um em cena, do anti-herói que já ultrapassou os limites da infância ao determinado clichê da violência vilanesca que atropela como um trator com suas ações. 

São desempenhos onde, na totalidade, há o entendimento do peso de cada vírgula empregada em seus discursos, nos gestos cometidos pelos seus intérpretes, e que contribuem para a leitura e o desenvolvimento dessas figuras rumo a uma tragédia cotidiana de se perceber espoliado em seu próprio universo. São interpretações tão complexas quanto o Caminhos do Crime decide demarcar, e pelo menos uma delas é inesquecível, e a maior de seu intérprete: Chris Hemsworth ainda não tinha se mostrado nesse lugar, tão frágil, tão cheio de impossibilidades, tão pouco à vontade em seus predicados, e que aqui de nada adiantam. Matar as saudades de um monstro da atuação quanto Nick Nolte é sempre excepcional, perceber que Barry Keoghan é um dos melhores no que faz hoje não é pouco. E ter dois atores tão pouco explorados em sua potência máxima, como Berry e Ruffalo, exibe um brilho especial à existências se esvaindo em perdas e desesperança. Cada um em cena exala um tom de melancolia à parte ao que está sendo contado – não há energia suficiente para realçar suas derrotas particulares, mas podemos ter uma nesga de esperança; o raio de sol no rosto do policial diminuído pelo estado das coisas, pela corrupção e pelo comodismo é uma delas. 

Fica na memória o quanto Caminhos do Crime percebe ser uma “anomalia do sistema”, e se vale dessa condição. Layton mostra que um bom filme (ou muito acima disso, na verdade) não necessita de algo além de inspiração, e controle sobre o que vemos. Sua obra é um recorte do gênero policial com um olhar sobre as relações entre cidade e indivíduo que interessa a Michael Mann, por exemplo. Suas motivações, e a forma como é desenvolvido, a maneira como todas as ações em cena são livres de consequências de seus atos para simplesmente poderem conversar entre si com coerência, e a forma como seu diretor aplica tais elementos à dinâmica das imagens. As luzes e as cores, a maneira como a composição de seus planos desviam-se do banal para compor um painel de solidão e reter seus personagens em uma órbita de espera; o homem que se muda de um espaço impessoal para um quarto absolutamente branco, outro homem que se despe das imagens de luz que impregnam seu corpo 

Não está necessariamente da forma mais direta como é empregado, e esse é um dos trunfos de um filme absolutamente formidável, e que poderia ter escolhido ser mais uma obra despejada no circuito, a partir dos contratos assinados. Caminhos do Crime é inquieto às horrorosas lógicas do mercado de hoje, que pede a gradual acomodação do espectador; há convite para a construção dos enquadramentos aqui e a posterior análise dessas decisões. Sem deixar por isso de entregar um baita entretenimento, e uma reflexão sobre a necessidade social de produzir derrotados nos dias de hoje, que acontecem à revelia dos sonhos de cada um. Ao fim da projeção, a ideia não é assumir a derrota como parte integrante da existência mas a sobrevivência diária ao horror e a desesperança. 

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