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Quarto do Pânico chega com exclusividade ao Telecine

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A ideia era excelente, aliás a ideia é tão boa que deveria ser utilizada outras vezes. Ao invés de realizar remakes de produtos originais que todos já refizeram (como Perfeitos Desconhecidos), pode ser muito saudável reutilizar uma boa e fácil ideia. Veja o caso de O Quarto do Pânico, um dos filmes “simples” de David Fincher, basicamente um exercício de estilo, um suspense com leve passagem pelo noir, uma brincadeira divertida do diretor. Hoje quase esquecido, ou tratado como o filme menor que ele é dentro da filmografia do cineasta, permite que um remake seja feito com as muitas possibilidades que podem se abrir; Quarto do Pânico é dirigido por Gabriela Amaral Almeida, cuja filmografia conversa muito com o título original. Logo, a escolha da cineasta ali é um acerto que o projeto precisava para acontecer, e permitir um olhar diverso sobre uma história que, essencialmente, trata das origens de um medo feminino ancestral.

Com um ponto de partida mais azeitado, o filme não abre mais com uma traição consumada, mas com uma tragédia: uma mulher está no carro no momento que um assalto tira a vida de seu marido, deixando ela e sua filha sem chão. Na tentativa de reconstruir a vida, esbarram no trauma que a mãe hoje sofre com a violência urbana. Ou seja, agora trata-se de uma doença com causa e efeito: a síndrome do pânico que acomete a protagonista está em toda grande metrópole, vitimando todo tipo de indivíduo. O que nasce dessa situação a posteriori, sai da narrativa que o filme apresenta desde o original para ocupar um lugar de discussão que existe hoje e não há 25 anos atrás. O feminicídio infelizmente é um traço alarmante em sua crescente hoje, e, como a própria cineasta declara, uma mulher que tem a casa invadida por três homens lida com temores de natureza bastante particular, além das óbvias. 

Por trás dessas motivações, existia também uma questão subentendida: como já dito, o original de Fincher era um filme de mise-en-scene elaborada, porque o autor de A Rede Social viu ali um espaço para exercitar suas habilidades estilísticas. Já a nossa versão para esse enredo, abdica dos arroubos que o filme dedicava a criar atmosfera e suspense, para centrar-se em questões subjetivas da narrativa, que não estão explicitadas pelas imagens ou pelo discurso. Todas as ideias acerca do lugar do feminino diante da violência perpetrada contra, estão em entrelinhas tão bem suavizadas pela narrativa, que na superfície sobra um filme de suspense, apenas. Cuja diversão até está garantida, mas que acaba por não apresentar nada de especial mediante a enxurrada de títulos que mensalmente desembocam nos quatro cantos do audiovisual. 

Logo, perdeu-se a pirotecnia visual e a narrativa engenhosa acerca de uma luta por representação feminina no que está sendo contado, não tem a força estética ou visual que se pretendia. Se no original, Fincher fez uma diversão inconsequente de visual arrebatador, Quarto do Pânico é somente uma diversão ligeira sem maiores implicações. A interação acontece entre os 5 personagens centrais: mãe, filha e os três invasores de uma casa que prometia ser mais segura do que efetivamente se mostraria. Uma cena em particular convence em seu escapismo irrestrito, e que no original também respondia ao seu melhor momento, que é quando os lugares são trocados dentro e fora do tal quarto, além da dinâmica que se estabelece a partir daí. É um jogo que muda de lado em sua geografia, e cria uma dinâmica diferente em seu contorno. 

Aliás, o elenco é repleto de estrelas, a presença tranquila de Caco Ciocler nos coloca em posição de expectativa, inclusive não apenas pela criação do ator, mas porque seu desenvolvimento é o mais curioso e surpreendente. Além dele, Isis Valverde torna a mostrar suas capacidades agigantadas ainda que o material esteja aquém de seus esforços; com isso, a atriz ressignifica nossa própria relação com a obra, revelando relevância insuspeita. Ao menos uma das atuações é prejudicada pelo roteiro e as curvas de seu personagem, afinal não dá pra entender por que Marco Pigossi se coloca daquela maneira, colonizado e de presença estereotipada. Coletivamente, no entanto, também o elenco está em cena para servir à montanha russa sugerida, sem muito espaço para a criatividade cênica. 

Em tempos onde somos reféns dos streamings para o filme de porte médio (ou seja, aquele filme que não é o arrasa quarteirão gigantesco, e também não é o pequeno filme de arte/festival), Quarto do Pânico é uma pedida consciente de que o espaço para essa procura se encontra escasso, cada vez mais raro. Um material que diverte o espectador no jogo que é construído por um elenco de sonho, sem traços de surpresa positiva ou negativamente, no esquema do que vivemos hoje, é motivo de celebração. Fica a vontade de vermos a mesma equipe reunida para um produto original de Gabriela, que já foi capaz de Animal Cordial A Sombra do Pai, ou seja, nossa confiança nela continua intacta. Ainda que genérico, seu novo filme mostra saídas rentáveis para profissionais de primeira linha que só querem divertir. 

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