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O Frio da Morte: Emma Thompson estrela suspense psicológico 

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Emma Thompson não tem o reconhecimento que merece, ou seu nome já está gravado na História? Em um espaço de quatro anos, Thompson teve 5 indicações ao Oscar, em todas as categorias possíveis naquele momento; venceu como atriz (Retorno a Howards End) e como roteirista (Razão e Sensibilidade). Desde 1995, porém, a atriz teve interpretações do calibre de Momento de Afeto (sua estreia como diretora), Segredos do PoderSimplesmente AmorMais Estranho que a Ficção, e principalmente Walt nos Bastidores de Mary PoppinsTalk ShowCruella Boa Sorte, Leo Grande – essas duas, que se fossem vencedoras, não seria injustiça alguma. Uma imensa atriz como essa transforma um passatempo como O Frio da Morte em uma experiência maior, relevante e até emocionante. 

Ela é Barb, uma mulher tornada viúva recente, que busca estar conectada ao marido indo até um local de pescaria que era o porto seguro de ambos. Embaixo de uma tremenda nevasca, ela é testemunha de um sequestro que se desenrola em uma cabana próxima, onde ela pode ser a única oportunidade de salvação de uma jovem, feita refém de um casal. O Frio da Morte, de aparência tristonha pelo clima em que nossa protagonista se encontra, acaba por se transformar a cada nova camada acrescida, revelando novas situações a respeito dos antagonistas, mas também da protagonista e de suas motivações gerais. Através do talento geral, essa história que não é necessariamente original, ganha contornos de thriller dramático, em todos os sentidos. 

Passando ao largo da violência empregada nas ações (que é tão psicológica quanto física), O Frio da Morte investe no campo pregresso daqueles personagens. Ainda que apenas Barb seja evidenciada – afinal, ela é a protagonista – os personagens coadjuvantes também vivem à margem do drama, em questões diversas. Tanto o horror da proximidade da morte física, quanto o desejo por essa aproximação, esse é um filme arriscado, por flertar com formas de desejar tal finitude. O diretor Brian Kirk, tão experiente em séries de tv, aqui exibe seus talentos em longa-metragem que ainda não tinham sido exibidos antes. O resultado é uma produção que flerta com algumas maneiras de realizar a perda, ainda que em alguns lugares, essa sensação esteja além da saudade, e passe pela desistência física. 

Na narrativa, porém, nada dessas soluções são fáceis ou diretas. Muito do que é a aproximação com a morte no roteiro, é uma escolha consciente pelo debate a respeito das condições que o indivíduo tem, hoje, para decidir a respeito do próprio destino. Parte de uma necessidade que não está ligada à velhice, mas que está intrinsecamente ligada à consciência do que se quer – e o filme ainda mostra o contrário disso, quando tal decisão parece definitiva, embora não seja. Ainda que esse flerte não esteja desconectado das suas realizações, O Frio da Morte é uma produção cheia de uma adrenalina natural para seu gênero, mostrando inclusive saídas pouco clichês para um quadro mais óbvio. O roteiro, que se alicerça em disparadores tradicionais, encontra saídas pouco comuns, como o destino do personagem de Marc Menchaca, em ótima atuação. 

O clima coletivo do filme não é atingido pela temperatura da narrativa. Existe uma tradição de filmes de suspense que se desenvolvem em baixas temperaturas, como FargoO Enigma do Outro Mundo Terra Selvagem. Kirk, acima de tudo, consegue equilibrar os caminhos do roteiro escrito a quatro mãos; existe uma trama que conversa com o drama da solidão pós-viuvez, e uma outra que contempla o thriller de violência crescente. Tais vertentes moldam uma produção modesta, que se equilibra através das camadas que não estão somente na equação de suas narrativas, mas principalmente nos relevos que os personagens demonstram, mais elaborados do que se apresentam. 

Mais uma vez, O Frio da Morte não se contenta em ser apenas um veículo para uma (grande) atriz, e cria uma atmosfera propícia para um espetáculo completo. Seu elenco é excelente – o Karl mais velho de Paul Hamilton tem apenas uma cena e não precisa de mais para impressionar; a entrega diferenciada de Judy Greer mostra uma nova intérprete da comediante que conhecemos – e seu caráter lacunar carrega um lugar de dúvidas para a produção, que nem sempre serão respondidas. Em uma narrativa que ousa discutir a morte como parte integrante da vida, onde precisamos encarar cheios de coragem e até alguma esperança na próxima etapa, o filme se deixa mover pelo cinema de suspense policial. Com isso, Kirk viabiliza nosso interesse de espectador pelo próximo movimento, sem deixar de mover a reflexão acoplada no que assistimos. 

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