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‘Adorável Trapalhão – O Musical’ é uma maratona de saudades de texto impecável

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Ímã de risos, mas também um convite àquele choro que acalenta, “Adorável Trapalhão – O Musical” se desenha como maratona (das mais incansáveis) de saudade e fantasia, que toca de José Augusto (“Agora aguenta coração!”) a Gonzaguinha (“O Que É O Que É”). No embalo dessa nostalgia, periga ser o mais delicado estudo sobre a criação de uma persona na arte popular deste país. Não à toa, parte de uma lembrança materna.

Dona Dinorá usava vestidos florais de colorido outonal na casa em Sobral, no Ceará, onde criou um mar de filhas e filhos. Chegou a dar aula para as crianças das redondezas, incluindo a própria prole, sempre fiel à ideia de que o bom humor é o melhor remédio para edificar o Amanhã. O maior cúmplice de seus chistes era seu caçula, Antônio Renato. 

Já adulto, ele virou bancário e se formou em Direito, mas entrou para a História tomando emprestado as sílabas iniciais do nome da mãe… o Di… que, dobrado, virou Didi e deu asas a um anjo. De sua boca saíram gracinhas e bênçãos, tipo “Vamos todos pensar firme/ vamos todos pensar forte/ pra cair um pingo d’água/ e mudar a nossa sorte”, que é um diálogo do longa-metragem “O Trapalhões e o Mágico de Oróz” (1984). 

Ali, Didi conclamou os brasileiros para encarar a seca do Nordeste. Desde sua aparição, nos anos 1960, ele sempre peitou assombros. Por isso, uma experiência dramatúrgica sobre as peripécias de Antônio Renato sempre será uma narrativa sobre Didi. 

Em “Adorável Trapalhão”, num passadão, vemos os principais feitos dos 91 anos do maior palhaço de cara limpa de nossa nação. Mas quando uma pessoa tem um querubim consigo, como o Aragão do Brasil tem o Didi, esse lume angelical fala mais alto.  

Quem cantou essa pedra foi o trovador português António Variações (1944-1984), o Freddie Mercury de Lisboa, ao cantar: “Eu tenho um guarda que é um anjo/ Que me protege de noite e de dia/ A toda a hora e em todo lado/ Posso contar com a sua vigia/ Não usa arma, não usa a força/ Usa uma luz com que ilumina a minha vida”. Esse é o Didi, que se materializa no palco, sob a direção de José Possi Neto, na atuação de arlequim de Rafael Aragão, magistral em cena. 

A peça é sobre o quanto essa “entidade” sabe ser figura E fundo para o Renato. Didi é Sancho Pança e Don Quixote a uma só vez, no rastro da comédia pícara dos sábios ibéricos. É o Chaplin que brilha solo ou em quarteto, com Dedé (muito bem defendido por Thadeu Torres), Mussum (Rupa Figueira) e Zacarias (Vicenth Delgado).   

Todo pimpão, Renato faz uma participação crucial nessa delícia de tributo que ganha do teatro. É uma narrativa honorária de dramaturgia melíflua, sempre fluída e leve, onde o texto escrito por Marilia Toledo se impõe no picadeiro da encenação por condensar habilmente cada fase da vida de Seu Antônio Renato.

Um dos maiores acertos de sua escrita é enfatizar sua dimensão de Irmão Grimm de nossa ficção, uma vez que ele escreveu os esquetes de seus programas na TV Ceará, na Excelsior, na Tupi e no PlimPlim, além dos argumentos de seus filmes. Marilia também é hábil em driblar a polêmica (rígida como bolha de sabão) da separação dos Trapalhões no início dos anos 1980.           

Seu recorte histórico, calçado na potência dionisíaca dos figurinos de Theodoro Cochrane, revê os acertos plurais de Renato Aragão (à luz do Didi). Maior campeão de bilheteria do país entre a segunda metade da década de 1970 e o fim dos anos 2010, quando contabilizou 30 milhões de ingressos vendidos (só ou ao lado dos Trapalhões), ele chegou aos 90 anos em 13 de janeiro de 2025, embalado no amor de legiões de fãs. O que tem de tiete no teatro não é brincadeira.

Sua conta no Instagram, prestigiada por 5,5 milhões de seguidores, é a prova de que ele fala para os novos tempos. Não por acaso, Rafael Aragão faz uma acertada piada ao dizer que a ala mais mirim da plateia vai estranhar um telefone discado, usado como objeto de cena. Dali vem a deixa para o musical demonstrar que Didi não ficou no ontem. É para sempre.

Possi dirige com manha cômica, reconstituindo quadros lendários do programa dos Trapalhões, de 1977 a 1994, sobretudo a caracterização de Didi como Maria Bethânia, a cantar “Teresinha”. A encenação também abalroa o choro, na hora em que a canção “Amigos do Peito” se faz ouvir. 

Da trupe escalada para esse mergulho no Tempo, sem cara de verbete da Wikipedia, ô, psit, tem muita gente bem. Ganham especial destaque a atriz e clown Paulão do Vraah (brilhante em cena como Lilian Aragão, a diva e companheira de Renato) e Marcelo Góes no papel do Sargento Pincel. Gabriel Gentil e Miguel Venerabile, escalados para viverem Renato em tempos de dentes de leite, também se impõem com graça em cena, assim como Bernardo Marcelino, o pequeno Chico. 

SERVIÇO Temporada: 26 de fevereiro a 19 de abril de 2026 / Horário: Quinta e sexta-feira, às 19h; Sábado e domingo, às 17h / Ingressos: na bilheteria Local: Teatro Sesc Ginástico  Endereço: Av. Graça Aranha, 187 – Centro

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