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Kill Bill: The Whole Bloody Affair, quarto filme da franquia de Tarantino, ganha versão completa

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O mundo estava preparado para o quarto filme de Quentin Tarantino em 2004, o que talvez não estivesse em preparo era que o tal quarto filme seriam dois. Kill Bill, um dos muitos clássicos desse que é um dos melhores diretores ainda em atividade na América do Norte, abalou as estruturas do circuito em duas partes, em um movimento radical que pareceu acertado à época. Na duração normal, a produção consumiria mais de 4 horas do seu público, então a separação em poucos meses de suas partes distintas era ao mesmo tempo curiosa e uma brincadeira que rendeu diversas repetições nas décadas seguintes. Agora, temos acesso a Kill Bill: The Whole Bloody Affair, a versão completa, com cenas novas e em duração de quatro horas e meia de material bruto; a experiência é completa e precisa da imersão de cada espectador. 

Para quem já conhece a história da Noiva, essa situação é mais facilitada, por se tratar de um filme acertadamente cultuado há mais de 20 anos. No campo dos novos espectadores – que, sinceramente, parecem ser a menor parte do público – existe a sedução com a própria filmografia de Tarantino. Kill Bill: The Whole Bloody Affair, a partir da própria duração, transforma-se em uma experiência imagética e sonora, cujo mergulho é essencial. Reencontrar aquela narrativa, com aqueles personagens e suas encruzilhadas, é travar novo diálogo com tipos queridos que ainda se comunicam com o cinema hoje, e com o cinema que o cineasta ensinou a cultuar. Ninguém tira de Tarantino suas polêmicas e posições equivocadas, assim como a cinefilia que eles nos apresentou, expandindo nossa bagagem em meados dos anos 90. 

Tudo continua tão vibrante quanto sempre foi, das coreografias precisas retiradas dos filmes de kung-fu de baixo orçamento (especialmente Lady Snowblood) até a trilha sonora que marcou época. O que a nova versão carrega são as cenas que tinham caído da montagem original – em trabalho estupendo da saudosa Sally Menke – e um senso de urgência dessa narrativa, agora uma jornada única em busca de algo intangível e que vai além da vingança. O que move Beatrix Kiddo são as perdas consecutivas que sofreu, do homem que um dia amou, do grupo que um dia fez parte, do futuro que um dia planejou e da filha que um dia foi a prova de amor necessária para abandonar sua história. A continuidade do tempo narrativo emprega em Kill Bill: The Whole Bloody Affair uma unidade ligada estritamente aos eventos que já conhecemos, aqui apresentados com a rapidez de quem precisa acordar de um coma e concretizar um plano maior. 

Essa nova versão reconfigura os pontos de intersecção entre a história da personagem central com sua meta: alcançar os elementos possíveis para finalizar uma missão árdua. Se o original já carregava pra si essa urgência, Kill Bill: The Whole Bloody Affair expande essa sensação para uma eletricidade que antes não tinha sido alcançada. O trabalho de Menke é reverberado aqui, porque as mais de 4 horas parecem reforçar cada segundo de eventos em cena. Não há pausa para respiro, ainda que alguns momentos não digam respeito a sua trajetória, mas realizados para enfatizar o que será cometido em seguida. Para que o corpo de personagens ganhe função para além das cometidas por Beatrix, e o espectador entenda a tragédia que se desenrola entre todos, seu entorno é enfatizado, e suas prováveis perdas são detalhadas, como o momento onde A Noiva é flagrada pela filha de Vernita Green encerrado o conflito. 

Se está intensificada a tensão, também está mais agudo o drama pelo qual essa protagonista atravessa. Como dito acima, Beatrix Kiddo é refém de seus revezes, e a interpretação de Uma Thurman soa ainda mais carregada dessa energia que potencializa as ações. Tudo é extremamente simples, e por isso mesmo esse tal melodrama se mostra tão eficaz; o maniqueísmo é usado a favor do que está sendo mostrado, através de um estado de coisas construídas a partir do olhar tradicional mundano das relações. Kill Bill utiliza a dose ideal de adrenalina e de sentimentalidade para aproximar o filme de outra narrativa igualmente tradicional do cinema estadunidense: o faroeste, que observa os conceitos de vingança inseridos em uma situação catártica. Unidos, o uso excessivo do artifício dramático e da descarga feroz de voltagem, são o resultado que se conhece como bem sucedido há 23 anos. 

Por ser um exemplar reconhecido dentro de gêneros reconhecidos como “menores” (melodrama – faroeste – artes marciais), Kill Bill era comumente tratado como uma produção menor de Quentin Tarantino. Ou menos relevante, ou mais escapista. O passar dos anos, as revisões, e agora a chegada de Kill Bill: The Whole Bloody Affair talvez dê ao filme um lugar tão qualitativo quanto Pulp Fiction ou Era uma Vez em Hollywood; em nada o universo da Noiva, de Bill e seus personagens tão icônicos quanto, é menor. A construção do roteiro, a formatação de seu tempo, a reimaginação que seu autor faz de histórias clássicas tratadas como descartáveis e enfim transformadas em ARTE, é uma marca registrada do diretor. O caráter épico que o filme agora ganha, com seu escopo finalmente integrado ao que está contado, reflete esse material pictórico e compõe o quadro intrinsecamente pop desse tratamento, e o revela tão válido quanto filmes tradicionais para o cânone.

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