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Missão Refúgio consolida a estética autoral de ‘dublê diretor’ de Ric Roman Waugh

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Imortalizado nos tímpanos brasileiros com o falar paulista de Armando Tiraboschi, o Celacanto sagrado da dublagem nacional, o inglês Jason Statham engoliu Dwayne Johnson e Vin Diesel na disputa pelo posto de ferrabrás número 1 do cinema. Em “Megatubarão” (2018), cansado de ver gente morrer para um peixão mastodôntico, ele deixa a tecnologia de lado, pega um facão e dá jeito, sem dó nem piedade, do bicho, mostrando que brucutu também é bem-vindo neste mundo, quando tem altruísmo. Esse é seu arquétipo, uma vez mais em Missão Refúgio. 

“Shelter” (no original) é um filme amargo, sem conceções ao riso. Não é uma chanchada de Jackie Chan ou Will Smith. É ação à moda Stallone, tipo Rambo II: A Missão (1985), onde se entende que todo herói é um ser “dispensável”. Não é que ele seja descartável, pois não se mantém uma sociedade sem um guardião da polis. Mas herói, como cantava o compositor Arnaud Rodrigues, “é o cabra que não teve tempo de correr”. Nem para a fama. Talvez porque os guardiões que pavimentem a manutenção da vida na Terra dispensem holofotes. 

Aliás, os tipos vividos por Statham gostam de ser invisíveis, nas sombras da vida, no fio da morte. Do seu jeitão despojado e de seu acento cockney, num falar de palavras duras, o astro de Missão Refúgio parece o oposto da apolínea figura de heróis hollywoodianos clássicos, como Gary Cooper (1901-1961), sobretudo em sua maneira de diminuir a densidade populacional da bandidagem, por onde pisa.

O assassino super bem treinado que Statham interpreta sob a direção de Ric Roma Waugh guarda semelhanças com o filme que deu ao supracitado Cooper o Oscar de melhor ator, em 1953: o faroeste “Matar ou Morrer” (“High Noon”). Nos cinemas, a ação é filha cosmopolita do western. Jamais haveria Rambo sem Ethan Edwards, o maior caubói de John Wayne, visto em “Rastros de Ódio” (1956). E a ação, tal qual o bangue-bangue, foi tornada proscrita pelos fariseus das fake news. E já é assim faz tempo… 

Quando entrou na puberdade das artes modernas, após a II Guerra, o Cinema sacrificou o faroeste, tratando o filão como um sarcófago das narrativas épicas, incapaz de suportar o peso da psicologia que os anos de 1950 (em diante) passaram a impor aos storytellers, como um veio de espichar a durabilidade e a essencialidade dos personagens. Vem sendo assim também com os filmes de ação, que parecem viver de franquias como “Velozes & Furiosos”, com Vin Diesel; “Os Mercenários”, com Stallone; e a revolucionária “John Wick”, com Keanu Reeves.

Para dar adeus ao faroeste, gênero que experimentou sobrevidas, sempre trágicas (“Os Imperdoáveis”), niilistas (“Os Oito Odiados”) ou sazonalmente ambientalistas (“Dança Com Lobos” ou “First Cow”), Hollywood esculpiu “Matar ou Morrer”, escalando como signo de bondade um xerife: Will Kane. Cooper o encarna como um herói outrora intrépido e, hoje, cansado pela idade, ciente de já ter dado à sua cidade o melhor de si. Mas um bandido do passado vai voltar, no trem das 12 horas, para se vingar dele. 

Seria fácil, fácil pra ele, fugir dali, deixando o passado pra trás, e meter o pé. Mas o molde a partir do qual Kane foi esculpido transforma barro em gente a partir de uma mandinga, hoje cada vez mais esquecida, que prega: “Um homem tem que fazer o que um homem tem que fazer”. Kane fica não porque precisa, mas porque tem um dever, um fardo. O mesmo se dá com Statham nesta pérola de Roman Waugh. Aliás, é sempre isso o que ele faz, numa perspectiva autoral de construção de modos de atuar. Statham é um “ator autor”. E Roma Waugh é um “dublê autor”.

Apesar da patrulha de que é vítima, à luz de aparelhos ideológicos da correção política, o nicho chamado “cinema de ação” encontrou um balão de oxigênio capaz de restaurar seu fôlego pro século XXI, à luz da chegada de dublês à direção. Chad Stahelski é o mais notório deles, por ter sido o responsável pela mais brilhante franquia do gênero em anos a fio: a saga “John Wick” (2014-2023), que, no ano passado, inspirou um derivado, “Bailarina”. Vindo também de loucas aventuras em bastidores de blockbusters e filmes B, David Leitch conseguiu uma vitória de padrões históricos para os dublês-realizadores ao ser escalado para abrir o Festival de Locarno, na Suíça, em 2022, com “Trem-Bala”, estrelado por Brad Pitt. 

Além dele e de Stahelski, tem outros nomes nessa seara, ainda não tão cacifados, mas já bem-vindos em Hollywood nos departamentos de produções de orçamento mediano, mas de ampla ambição estética quando o assunto é plastificar o trinômio “tiro, porrada e bomba”. Ric Roman Waugh é um deles, aliás, um dos melhores, não só no desenho de sequências de perseguição ousadas como no esforço de injetar humanidade nas tramas. 

Ele trabalhou em sets de alto risco nos anos 1990. Servia de substituto para Jean-Claude Van Damme e Dolph Lundgren em “Soldado Universal” (1992), nas filmagens das situações mais letais. Fez stunts(termo usado para a ação dos dublês) ainda em “Eles vivem” (1988) e “O Vingador do Futuro” (1990). Isso assegurou a ele apreço pela representação da fragilidade e da falibilidade dos heróis, o que ele levou para seu longa de estreia, “Na Sombra do Crime”, com Cuba Gooding Jr. Seus heróis carregam um desamparo incontornável.

Trabalho mais madudo (e frenético) do cineasta, “Missão Refúgio” valoriza afetos na mesma medida em que arranca nosso fôlego ao despedaçar a alma de Michael Mason, um matador treinado pelo governo, lotado no grupo de elite Black Kites. Ele é assombrado por traumas do passado. Statham consolida essa assombração numa atuação taciturna (ainda que desfile carisma a cada gesto). Faz dele um ronin, um samurai sem mestre. 

Para se afastar do combate, Mason opta por viver em completo isolamento em uma ilha remota da Escócia, longe de qualquer contato com o mundo, acompanhado apenas de seu cão. Todas as semanas, esse vigilante cansado de guerra recebe mantimentos de Jessie (Bodhi Rae Breathnach), uma jovem que chora a perda da mãe e que fica cada vez mais frustrada com o isolamento de seu cliente. Um dia, Jesse fica presa na ilha após uma tempestade. Mason cuida dela e vai ao continente comprar roupas, acidentalmente atraindo a atenção do seu antigo superior, Manafort (Bill Nighy, sem colossal), que envia uma equipe para eliminá-lo. 

Ao se ver como um camundongo com hidrofobia numa caça de gatos a ratos, Mason mata os homens e foge com Jessie para uma quinta escocesa, iniciando um jogo em prol de sua sobrevivência sob a mira do matador Workman (Bryan Vigier). O resultado desse processo, editado numa montagem dionisíaca por Matthew Newman, é um herói mortal, não um deus. Statham gera identificação se dê pelo prisma da vulnerabilidade, embora nos pegue pelo coração com sua cara de mau e com seus golpes infalíveis. 
O que temos aqui é um espetáculo pop vigoroso… ainda que crepuscular. 

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