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Devoradores de Estrelas: Ryan Gosling e Sandra Hûller conectam euforia e pragmatismo

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O ser humano é absolutamente fascinado pelo espaço; a cinefilia usa e abusa dessa noção para continuar explorando a ilimitada vastidão do espaço em produções que tentam elaborar novas visões sobre um lugar tão desconhecido e amplificado. Devoradores de Estrelas, nova adaptação de uma obra de Andy Weir (também de Perdido em Marte), igualmente escrita para as telas por Drew Goddard, estreia essa semana com comentários que garantem a ele uma vida longa por 2026, até certa premiação do ano que vem. Mas um filme deve ter suas qualidades validadas por possíveis indicações, e tais predicados só se tornam válidos quando atrelados a esse resultado? Em tempos de resultados, essa parece ser uma matemática com a qual os analistas não parecem dispostos a abrir mão, infelizmente; filmes devem sempre ter sua independência a apetrechos externos. 

A dupla de diretores Phil Lord e Christopher Miller parece estar em seu melhor e mais inatacável momento. Um trabalho de construção árdua nos últimos 15 anos os trouxeram até aqui, partindo das animações; o quarteto de mãos é responsável direto por sucessos como Tá Chovendo Hambúrguer! Uma Aventura Lego, e indireto em outras duas obras incríveis, A Família Mitchell e as Revolta das Máquinas e o trio de longas de Homem-Aranha no Aranhaverso, como roteiristas e produtores. Depois de comandar hits também em live-action (Anjos da Lei), esse Devoradores de Estrelas é um passaporte definitivo para o time classe A do campo hollywoodiano, conseguido com o esforço e a recompensa (ao público) com uma obra desconcertante sobre, pasmem!, o afeto nos dias de hoje. 

Assim como outros projetos onde a lógica do significado se projeta para longe do que é filmado, Weir e Goddard não escondem da produção seu caráter, digamos, científico. Devoradores de Estrelas, no entanto, não precisa – e nem deve – ser assistido pelo aval do significado, mas do significante; tentar capturar a síntese de tudo o que é proferido por profissionais da física no filme é uma tarefa menor. Por que nosso olhar é sistematicamente deslocado para outras minúcias da produção, essas sim suas verdadeiras motivações narrativas. Trocando em miúdos, caso o espectador não seja astrofísico ou estudante de exatas, o que está sendo vendido não é exatamente a definição ipsis literis do que é narrado: veja a beleza do que é construído nas entrelinhas do concreto. 

Devoradores de Estrelas é, acima de tudo, uma bonita homenagem de dois sujeitos que provavelmente cresceram como boa parte de nós, animado com o melhor da ficção científica oitentista, tais como CocoonViagem ao Mundo dos SonhosInimigo Meu mas principalmente do primeiro Spielberg, aquele de E.T. Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Filmes que, assim como essa obra, estão preocupados com o encontro e com o que nasce entre eles, de como o horror do fim pode ser uma construção da melancolia, e em como esse sentimento é diluído a partir da conexão verdadeira. Da empatia e do entendimento que precisariam acontecer para que fossem evitadas guerras e conflitos civis; diria que os autores em questão são antibelicistas em essência, e encontram saída na última possibilidade de amor que nasce da certeza do fim. 

Apesar da inexplicável velocidade com que é apresentado, que acaba por criar uma dissonância na edição lá pela sua metade, sua longa duração acaba por permitir que a narrativa em questão seja desenvolvida em ritmo mais introspectivo do que poderíamos supor pela largada. É como se o filme abandonasse o ritmo natural de seu protagonista para adentrar na espiral de espera que uma vida espacial é capaz. Após isso, a solidão pelo qual Ryan Gosling é impingido (e que nos remete a clássicos como 2001 ou obras recentes como Lunar) dá lugar a uma inusitada investigação pelo afeto que nunca se ousou permitir. Sem desenvolver o que seu protagonista poderia carregar, Devoradores de Estrelas não tenta ser um projeto mais inacessível do que poderia, pelo contrário; a vontade intrínseca da obra é de entreter, mesmo quando a atmosfera é de reflexão acerca da vida e da morte, e o que fazer entre essas duas certezas. 

Capitaneado por interpretações coligadas entre Gosling e Sandra Hûller (indicada ao Oscar por Anatomia de uma Queda, em ano que parece ser seu), que conectam euforia e pragmatismo, Devoradores de Estrelas também respira esse ar. O filme quer carregar uma ambição estrutural para o discurso técnico que carrega, sem deixar de envolver o espectador na sua busca particular por um afeto que não se sabe onde foi perdido, em tempos onde o fim está cada vez mais próximo. Com seu visual arrebatador e singular mesmo para espectadores já tarimbados da ficção científica, o filme abre o ano para os blockbusters de sucesso com o sarrafo bem alto para seus rivais. Lord e Miller, em meio ao entretenimento, nunca deixam de provar uma dose bem avantajada de ambição estética, o que coloca sua obra em um recorte especial da fábrica de mesmices do gênero. Sua sensibilidade para esse tratado sobre recuperar o livre arbítrio no fim dos tempos causa emoção de verdade, e mostra que o futuro da máquina hollywoodiana talvez esteja garantido. 

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