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O Mago do Kremlin narra a ascensão obstinada de Putin

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Olivier Assayas tem 40 anos de carreira e em determinado momento, ali por volta de 1996, começou uma guinada na carreira que durou pelo menos os próximos 20 anos. De Irma Vep Personal Shopper, praticamente só acertos aconteceram e vieram um sem número de prêmios, consagração e um espaço na cinematografia mundial que o elevaria a uma marca consolidada; mais que isso até, esperada. Vidas Duplas tratou de acender um alerta para um cinema menos corajoso, talvez uma visão simplista dos temas apresentados e suas reverberações. Wasp Network Tempo Suspenso, os filmes seguintes, mostraram mais do que desconfiança, mas a certeza de que estávamos assistindo ao ponto mais baixo de uma carreira excepcional. Nada como um dia após o outro; O Mago do Kremlin não é um dos melhores filmes de sua filmografia, mas uma óbvia recuperação de sua força, ainda que modesta e com um olhar mais universal. 

 O Mago do Kremlin é seu filme mais comercial, anunciado com cartelas que o tratam como um produto na linha “qualquer semelhança com fatos e personagens é mera coincidência”, mas não acreditem nisso. A partir da primeira cena, o que está em nossa frente é uma tentativa de recriar a Rússia dos últimos 40 anos e os criadores de um momento estarrecedor; na verdade, um personagem, um dos mais abjetos tipos do nosso tempo. Vladimir Vladimirovitch Putin é o presidente da ex-União Soviética há quase 15 anos, e desde então vem disseminando uma política de olhar totalitarista, exercendo seu cargo com a mão típica de um ditador. O que temos aqui não é exatamente seu surgimento diante da arena pública, mas a visão de bastidores que possibilitaram sua criação. 

Assayas filma tudo, certamente, com uma aparente pretensão comercial mais explícita. Os tons biográficos que envolvem os elementos e sua centralidade, o tal ‘mago’, ditam essa percepção, mas o que está na pauta em realidade é esse cenário da sociedade russa desde 1980 até os dias de hoje. Temos as possibilidades progressistas que poderiam vigorar no Estado, que vão sucumbindo às ações políticas de grupos cujo único interesse é tomar o poder. Ainda que estejam em condições esquerdistas em tese, O Mago do Kremlin mostra seus personagens na totalidade dessa busca por poder (seja ela almejada ou circunstancial), o que os equipara. Como se fossem membros de uma engrenagem que só funciona à base da ganância e da violência crescente que suas ações propiciam. 

O personagem central é sim uma figura, em tese, fictícia – no desenvolvimento de sua história, e em seu desfecho. Mas Vadim Baranov tem uma inspiração real: Vladislav Surkov, secretário de Putin até 2020, que exercia alguma influência sobre ele. Em O Mago do Kremlin, essa questão é transformada em uma espécie de mentoria, além de ter sido o responsável por incentivar o ex-primeiro ministro e ex-diretor de segurança do Estado a se deixar levar pela candidatura. Mas o filme segue Baranov desde a adolescência, seu crescimento em relação ao pai, sua incursão pela dramaturgia teatral, seu romance com uma jovem alpinista social que se julga cantora, e as derrocadas emocionais que ele enfrenta ao longo da vida. Ou seja, se essa leitura biográfica for feita, precisamos entender que ela está mais a serviço de entender o contexto e as relações de poder de um país, do que nas costas de um personagem em particular. 

Se o diretor não pretende criar um relevo estético ao material filmado, é perceptível que O Mago do Kremlin leia os hábitos e comportamentos de um período, para nos transportar para aquele tempo e aquele lugar. Sim, a Rússia não é um país que muitos conheçam, ainda mais no período retratado, mas a descrição do que vemos em contradição do que está em texto, é um agradável experimento social. De tal maneira, seu elenco aparece em forma, como Tom Sturridge (de A Cronologia da Água) e o sempre ótimo Jeffrey Wright (indicado ao Oscar por Ficção Americana). Já Paul Dano, não sei se consegue realizar algo que diferencie sua atuação aqui de outros momentos seus, abusando de uma persona introvertida que o espectador já está acostumado. 

Contudo, O Mago do Kremlin pertence a alguém, e esse alguém chama Jude Law. A estrela de Closer Cold Mountain não está apenas caracterizado como Putin, mas absolutamente submerso em sua máscara, seus trejeitos, seu olhar. Através de seu corpo, de seus sutis maneirismos, Law arregimenta nosso fascínio por trás dessa corporificação. Desde sua primeira aparição, reticente às ideias de Baranov, o ator duas vezes indicado aos prêmios da Academia nos deixa abismado, e sua entrega transforma O Mago do Kremlin em um daqueles programas imperdíveis, independente da formalidade apresentada aqui. Caso raro de um ator que perpassa as ausências do seu material formal, para transformar não apenas ao espectador, mas principalmente nossa relação com a obra, a impressionante performance de Law eleva o retorno de Assayas em algo superior, e diabolicamente especial. 

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