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Rio de Sangue traz protagonismo feminino em nova obra nacional policial

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O cinema de mercado brasileiro tem em abril de 2026 um desafio, que vai ser ainda mais reconfigurado nos próximos meses. Estamos vivendo semanas de estreias com potencial de comunicação ligadas ao thriller, em sequência Barba Ensopada de SangueCinco Tipos de Medo, esse Rio de Sangue e semana que vem Papagaios. São quatro filmes de claras ambições de comunicação popular, onde todos poderiam encontrar seu espaço junto ao espectador com uma estratégia acertada. Dos quatro, Rio de Sangue deve ser o que mais pode alcançar tal resultado, por uma matemática tão simples quanto injusta: de todos, é o único lançamento de distribuidora ‘major’ no mundo, no caso a Disney. Essa contradição entre ser um produto original da ‘casa do Mickey’ e a natureza do que vemos, é, certamente, um dos pilares sedutores da obra. 

Em tese, existem muitas armadilhas em torno de Rio de Sangue. Escrito por 10 mãos, montado por 6 e fotografado por 4, essas são diretrizes que não carregam qualquer qualidade prévia para dentro de uma obra. Acaba soando, no papel, como um produto que passou por inúmeras tentativas de conserto, desde sua ideia original até sua concepção visual, até chegar em seu corte final. Tais créditos de abertura assustam quando percebemos a quantidade de pessoas envolvidas em um processo criativo que precisa ser mais controlado. O resultado impressiona, por que o provável auxílio de um ou outro profissional sanou o que poderia causar os embaraços narrativos e estéticos: o material é acima da média, definitivamente. 

Os riscos eram muitos, o maior deles é a eterna dificuldade de lidar com os povos originários no tratamento deles na contemporaneidade, e o Norte do país sendo retratado, na regularidade, de maneira discriminatória. Ainda que sigam alguns dos problemas mais tradicionais, como a falta de representatividade entre os atores e as necessidades de seus personagens, Rio de Sangue cobre tais pecados com um elenco de grandes intérpretes. Giovanna Antonelli, Alice Wegmann, Ravel Andrade, Felipe Simas, Rui Ricardo Dias mas principalmente Antonio Calloni e Vinícius de Oliveira são um grupo excelente. O segundo aqui tem seu melhor momento desde Central do Brasil, utilizando uma coloquialidade intrínseca à violência local; a cena do confronto entre ele e Wegmann no garimpo é das melhores do filme. 

E por falar em violência, é feliz que sejamos colocados a par de uma história onde tais elementos sejam tratados com crueza, como na cena da chegada na aldeia, ou em como cada poça de sangue é derramada em cena. Não se trata de exaltar esse espaço que existe dentro de um certo gangsterismo possível na Amazônia, um desses decalques dentro do que é sabido, ou imaginado. Patrícia é uma policial jurada de morte que precisa da ajuda da filha para se proteger, mas acaba não conseguindo fugir de uma perseguição que a violência empreende até ela. Todas as ações soam críveis, por adentrar universos que tradicionalmente são carregados de homens letais. 

Aliás, a trama de Rio de Sangue passa longe de conseguir algum resquício que seja de originalidade, mas isso não é um problema a priori. Tudo que é contado pelos cinco roteiristas (incluindo o genial Dennison Ramalho, diretor de Morto Não Fala) carrega sedução pelo seu ambiente fora dos padrões, e pela maneira como tudo alimenta o bom gosto estético. Gustavo Bonafé, que tinha dirigido o igualmente surpreendente Legalize Já, é um cineasta cujas qualidades nunca são caladas por algum esquematismo. Pelo contrário, ele consegue torcer nossa expectativa mais negativa e transformar seu produto, ir além da qualidade e dar relevância ao que assistimos. Ainda que a narração de Fidelis Baniwa seja didática e por vezes anti climática nos lugares comuns declamados, o ator está bem em cena, com uma presença que dignifica todo o setor de atores de origem indígena.

Existe uma crueza no tratamento temático, e até alguma crueldade ao redor de seus tipos, que muitas vezes não terão saída. Mas o rumo que cada um toma, os dilemas que mocinhas e bandidos enfrentam, são genuínos em seu tratamento. Em tempos onde o nosso cinema precisa ser recompensado pela quantidade de material do qual somos bombardeados, um filme como esse renova a capacidade de comunicação com um público que não tem escolhido necessariamente a ele. Além de ser uma surpresa, o filme de Bonafé chama atenção para “causas importantes” sem explorar suas possibilidades de maneira oca. Caso a narração em off auto explicativa e de qualidade textual duvidosa fosse deletada, talvez estivéssemos diante de uma produção para disputar listas de melhores do ano. Do jeito que ficou, esse é “apenas” um ótimo filme.

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