- Publicidade -

‘Aurora – Uma homenagem à obra de Paulo Mendes Campos’ proseia com a criação literária

Publicado em:

Quantas/os estudantes de Letras, nestes tempos de “autoficção”, “escrevivência”, “escrita do eu”, sabem quem foi Paulo Mendes Campos (1922-1991) e… mais do que saber… tiveram soluços com seu “O Amor acaba”? A crônica em questão saiu em 16 de maio de 1964, no n° 630 da “Manchete”. Até que ponto, docentes que se formam hoje – quando pouco se lê e o que se lê tende a ser mediado por modismos políticos – ainda têm espaço (… e tempo) para viver um alumbramento ao ler PMC dizer “acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado”, “Aurora – Uma homenagem à obra de Paulo Mendes Campos”, é, certamente, indispensável por isso. 

"Aurora - Uma homenagem à obra de Paulo Mendes Campos"
Foto: Nil Caniné

Para além de todas as suas elegantes formas de reinventar o conceito de “recital”, proseando com a poesia e versificando a prosa, “Aurora – Uma homenagem à obra de Paulo Mendes Campos” foi escrito e dirigido por Rodrigo Penna e se faz urgente, indispensável e redentor ao lembrar a gente que o Cânone Ocidental, responsável por imortalizar os grandes cronistas do país, parece tê-los escanteados. Foram para o nicho dos nostálgicos. 

Houve um tempo, um tempo de coleções como “Para Gostar De Ler” e afins, em que Paulo Mendes Campos e (seu Erasmo Carlos de alma) Fernando Sabino (1923-2004) tinham encontro marcado com a gente na escola, no Vestibular, no Enem, no prazer da leitura diária. Lê-los era uma faca de dois gumes: o prazer da simplicidade de um lado; o corte fino da descrição da vida, uma descrição quase filosófica, do outro.  

É da natureza da cultura que venham novas vozes artísticas para a Literatura. É sinal de saúde. Conceição Evaristo, Carla Madeira, Eliane Alvez Cruz, Socorro Acioli, José Faleiro, Giovana Madalosso, Geovani Martins, Bruna Mitrano, Marcelo Moutinho e mais uma bateria de boa escrita das mais ribombantes geraram novos ecos, exorcizaram velhos demônios, abriram os nossos caminhos. Mas como entender a trilha que revelou essa turma toda… para além de vetores sociais … sem conhecer o pavimento que a nossa literatura fez para se pavimentar num diálogo com o público? Onde os Paulos Mendes Campos do caminho ficam? 

Por que deixar uma gênia como Marina Colasanti (1937-2025) ou Márcia Denser (1949-2024) em inércia, sem leitura, como verbetes de Wikipedia, numa fase em que a força feminina se faz vívida no combate ao sexismo, na busca de escuta? Que mal há em festejar o João Antônio (1937-1996) de “Malaguetas, Perus e Bacanaço” (1963), ou o Orestes Barbosa (1893-1966) de “Bambambã” (1923), na atual triagem literária do falar das ruas? Por que deixar como nota de rodapé o fato de que, em páginas de revista e folhas de jornal, Paulo Mendes Campos criou uma Comédia Humana particularíssima, que fez muita gente se catapultada para os livros?      

Numa dramaturgia reverente (mas nunca submissa), Rodrigo Penna traz uma solução para isso, em sua “Aurora”, numa revisão amorosa das palavras de PMC, como se deixasse que suas crônicas falassem por ele, num bloco do eu… o lírico… que se biografa como ninguém. O texto de “Aurora – Uma homenagem à obra de Paulo Mendes Campos” é uma visão de seu homenageado por ele mesmo, mas é também uma revisão da Minas de onde ele veio e (acima de tudo) do Rio onde ele se instalou. 

“Aurora – Uma homenagem à obra de Paulo Mendes Campos” traz um falar “autogeográfico”, que acha um ponto final em vídeo, numa delicada coda audiovisual com Julia Lemmertz, além de vídeo com Lázaro Ramos também. 

A operação dramatúrgica de Penna lembra o conceito do “romance em cena” de Aderbal Freire Filho (1941-2023), que promovia autópsias em corpo vivo de livros como “O Que Diz Molero” e “O Púcaro Búlgaro”. A diferença é que ele parte do devir cronista e do devir poeta de PMC, inventariado em opúsculos como “Minhas Janelas” e “O Homem Que Odiava Ilhas”.   

Ao longo do processo, o que se vê é o supracitado “eu lírico” de PMC dividido por três, em vestes de um vermelho vivíssimo idealizadas por Marie Salles (nos figurinos). O “trio parada dura” em cena tem por vértices Elisa Pinheiro, Kadu Garcia e Gustavo Damasceno. Ela traz um humor fino. Kadu, a maciez. Damasceno é o aríete. Juntos, pensam firme, agem forte… mudam a nossa sorte. Saímos do Poeira com quilos de palavras lindas, jamais findas, que ficarão. 

Responsável pela direção de movimento do espetáculo, a sempre melíflua Márcia Rubin dá à cena o rodopio preciso, o voo e a leveza. O chão vem da cenografia de Marcus Figueiroa e Emilia Merhy, com referências modernistas, numa alusão ao momento da Arte em que esta se entende por gente (quer dizer… entende-se como discurso, como narrativa, como linguagem e, principalmente, como centelha de revoluções). O devir moderno do cenário se soma em plena covalência com a direção de arte, assinada por Figueiroa e pela já citada Marie Salles 

Além disso, a iluminação de Lina Kaplan, combinada com a video-cenografia de Bê Leite e Rodri (TocaHub), brinca de Proust, ao sair em busca de um tempo perdido, nos levando, atenta ao falar do elenco, a um Rio de antigamente… até desvelar que o passado é agora. Ele tá lá no Poeira. O passado, em modo “já foi”, é inerte, é foto still. Paulo Mendes Campos é fricção, é cinema. Ele é… ele está. Penna também.

Na novela, “Top Model” (1989), onde viveu Alex Kundera Júnior, Penna foi o Rodrigo que todo Rodrigo deste Brasil queria ser. Seu personagem ganhava um Phantom System, numa época em que ter um videogame era um sonho. Mais do que jogar Nintendo, seu personagem era a síntese de todo o engasgo e de todo o desamparo de uma geração que não tinha um abraço para fazer de abrigo. Tais sentimentos ele traduzia numa mirada de existencialismo. 

Mais tarde, ainda ator, sempre operário do teatro, ele passou a DJ, fez o Bailinho, virou agitador da noite do Rio. Ampliou-se em sua relevância artística na cidade, mas não deixou aquele existencialismo poético para trás. “Aurora” é repleto dele, por isso a peça é tão bonita.  

Saiba mais sobre a peça!

Mais Notícias

Comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here

Nossas Redes

2,459FansGostar
216SeguidoresSeguir
125InscritosInscrever
4.310 Seguidores
Seguir
- Publicidade -