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100 Noites de Desejo, adaptação da ‘graphic novel’ de Isabel Greenberg, chega aos cinemas

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O espectador precisa de um tempo até se concentrar e conseguir encontrar-se dentro do manancial de possibilidades que é 100 Noites de Desejo, adaptação dirigida por Julia Jackman para uma ‘graphic novel’ de Isabel Greenberg. Na iminência de poder ser muitas coisas – uma fábula, uma homenagem à contação de histórias, uma aula de empoderamento, uma elegia LGBTQIAPN+ – o filme foi lá e resolveu ser todas, e mais algumas ainda. O invólucro é sedutor o suficiente para que fiquemos paralizados com o que está sendo contado, submersos em um tempo que pode estar igualmente muito para trás ou inacreditavelmente para frente. A sensação ao final da sensação é a de que nem todo material filmado precisa ser necessariamente esclarecido, ainda mais se a ideia é conceber uma tese acerca do que se conta.

Não é exatamente um elogio a maneira como coloco tais situações, e de como tudo parece pronto para descer goela abaixo do espectador. Mas, passado o susto inicial, resta uma história que me faz lembrar dos bons momentos de Tarsem Singh – o diretor de videoclipes transformado em cineasta, que concebeu coisas como A Cela Dublê de Anjo. Tal embalagem nos carrega para uma outra compreensão acerca do que vemos, produzimos ou investimos no nosso tempo. Não é como se fosse uma indicação fácil a ser feita (e, talvez, na verdade eu não o fizesse), mas 100 Noites de Desejo é uma fórmula pronta para ser apreciada quase como se fôssemos a uma exposição, e as modernas instalações interagissem umas com as outras. 

Na parte esclarecida do roteiro, um casal precisa ter filhos para sustentar um reino. O homem chama seu melhor amigo, forja uma aposta com ele onde a gravidez de sua esposa seria inevitável, e resolve passar as tais 100 noites fora, deixando eles dois e mais uma ama de companhia juntos em seu castelo. A partir daí, o roteiro de 100 Noites de Desejo condensa a vida pregressa dos pais de Hero (a ama), e as histórias fabulosas que Cherry irá contar para ela e Manfred. Sim, você não errou ao observar a semelhança com ‘As Mil e uma Noites’ aqui, que provavelmente era uma das dezenas de inspirações para Greenberg. A centralidade fabular acaba tendo seu centro na história de três jovens filhas de um rei que precisa encontrar um pretendente para elas, e acaba envolvendo uma delas em uma cilada cada vez maior. A salada proveniente do amálgama de tudo isso, talvez ainda não aproxime o espectador do que está sendo visto. 

Apesar de ser bem menos incompreensível do que imaginamos à primeira vista, 100 Noites de Desejo não se esforça para dar respostas prontas. Algo que deve ser um grande problema é esse desprendimento em relação a apresentação de seus propósitos, em contrapartida à duração enxutíssima (menos de 90 minutos), que deixa no ar a sensação de que não existe boa vontade em relação ao espectador. Mas a obra está disponível e não é ininteligível; apenas exige de quem a assiste um comprometimento maior com a liberdade narrativa. Com uma apresentação que se presta à extravagância, o filme não se deslumbra com o próprio deslumbre, pelo contrário, existe até uma tentativa de não se debruçar sobre isso. Tudo aqui é comedido, incluindo a explosão sexual que o filme tenta amainar a todo custo. 

O trio de protagonistas entrega muita sensibilidade a tratamentos pouco ortodoxos de condução de roteiro. Nicholas Galitzine (o He-Man de Mestres do Universo) é um ator em fase de expansão, e sua delicadeza diante de um cafajeste comum é bonita de se ver. Maika Monroe (de Corrente do Mal) sai da zona de conforto em torno de mulheres ativas em suas decisões para uma mulher pura de sentimentos, que descobre os mais profundos por quem menos espera. Emma Corrin (a Lady Di de The Crown) tem a melhor interpretação dos três, no que é o personagem-chave do enredo. Quem é Hero? O filme não responde, mas carrega para ela uma base de confiança no que tem a dizer, e a aparente fragilidade da atriz esconde uma fúria adormecida prestes a explodir. 

Aos poucos, o real casal de 100 Noites de Desejo se apresenta e mostra porque o filme estreia em junho no Brasil (além de pegar carona na visibilidade de Galitzine, que vê seu Príncipe de Etérnia chegar aos cinemas no mesmo dia). No Mês do Orgulho, toda semana teremos histórias ‘queer’ estreando, e o filme de Jackman, assim que abraça nossas suspeitas, mostra ao que veio. Ou seja, o nascimento de uma sexualidade fluida e a descoberta de um novo caminho a descobrir faz o filme ganhar contornos que saltam do lugar explícito de retomada de poder feminino, para mostrar que nossas lutas partem também de um ímpeto de auto descoberta.  

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