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Cinco da Tarde: Eduardo Nunes lança seu terceiro filme

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Eduardo Nunes revela algo que não se traduz na realidade: ele não quer ser um cineasta bissexto, ainda assim, e apesar da quantidade de prêmios que recebeu por suas obras anteriores, Nunes está lançando apenas seu terceiro longa 15 anos após ter lançado o primeiro. E não há irritação na cobrança por um novo filme do cineasta, mas sim uma ansiedade indiscriminada. Ao menos em 2026, podemos dizer que sim, o coração está mais alentado por sua nova obra, Cinco da Tarde – e a ansiedade se torna justificável ao final da projeção. Precisamos sim guardar um lugar nas listas de melhores do ano para Nunes, essa tradição se mantém em um longa surpreendente pelas escolhas, mas nunca pelo prazer de mais uma descoberta. 

Anabel está parada na porta de Meiko quando a jovem chega a sua porta. Pede para entrar. A avó de Anabel faleceu há pouco tempo, e essa informação não nos é dada da maneira mais convencional. Espaçosa, Anabel incomoda com seu silêncio e uma introspecção que só é interrompida por seus pedidos desconjuntados, quase impróprios em seu honesto desarranjo. Cinco da Tarde foi rodado em dois cenários e algumas brevíssimas externas, e esse aspecto claustrofóbico que essa decisão arranja faz sentido, e é bem-vinda; os espaços, pouco ocupados, parecem ainda mais gigantescos diante da imensidão do luto. Tudo é pouco e apertado, o olhar não alcança nada além da solidão que não se faz ideia de como aplacar. 

Assim como em sua estreia, Sudoeste (um dos melhores e mais subestimados filmes da década passada), Nunes tem completo domínio sobre os processos que elabora a partir de sua obra. Assim como nos projetos anteriores, a sombra da perda nunca deixa de ser sentida. Em Cinco da Tarde, existem dois olhares em tempos distintos sobre o luto – um está no auge da desfiguração, a dor em seu estado mais latente, e o outro já no campo da ressignificação. Esse encontro entre díspares sugere os lapsos de cor que o filme adquire vez por outra, como um raio de sol que insiste em queimar no inverno mais rigoroso. E já que a ideia é abrir o olhar para as camadas que se apresentam mostrem seus desenhos. 

A fotografia de Mauro Pinheiro Jr. não está em cena apenas para servir preto e branco, mas principalmente para fornecer as camadas de cor que o obra precisa. Porque aqui não reside apenas o tradicional pb, simbolizando a melancolia e a falta de vida esperadas. Explorando a dualidade do significado das sombras, e a múltipla propagação das mesmas em cena. Pinheiro e Nunes testam a profundidade de campo desse universo, que amplia os reconhecidos minúsculos espaços onde elas estão, justamente para transformá-las em prisioneiras dessa solitude. É um olhar que foge da força tradicional do que se espera da grandeza e falta de naturalismo do preto e branco, mas entendendo também alcançar o melhor disso. 

Parte da dualidade entre suas protagonistas (e do desempenho de suas atrizes) parte do envolvimento emocional com Cinco da Tarde. Anabel está impactada pela perda do agora, e o desenvolvimento de Barbara Luz para a personagem é mais explícito, mas dentro de um rastro do possível, ainda mínimo. Meiko é a porta-voz da luminosidade dentro daqueles espaços, mas é Sharon Cho quem carrega sua personagem de um passado que salta dos olhos. São duas jovens mulheres com a mesma sintonia, mas em cursos distintos; Anabel está de encontro com o que está sentindo, Meiko está em processo de recuperação, e funciona como um possível futuro. Ambas não se imaginam como tal,mas Nunes consegue transmitir o quanto elas se complementam e estão nos lugares devidos, na hora certa. 

Com uma simplicidade que não tinha sido ainda vista em suas incursões anteriores e uma compreensão profunda do que está sendo contado, Nunes apresenta suas inspirações orientais no rigor dos enquadramentos de Yasujiro Ozu e na entrega emocional de Kenji Mizoguchi, em seu olhar para a abertura ao fantástico como parte integrante da vida. Cinco da Tarde é um filme inserido em um tempo particular que não se conecta à velocidade das plateias atuais, mas seria exagero negar a existência de um outro tempo em meio ao rasteiro que muitas vezes é oferecido. Conseguimos enxergar com exatidão que esse não apenas é um cinema possível, como uma maneira das mais profundamente frugais de encarar os encontros e as perdas que ocorrem pelo caminho. E é sempre bom saber dar o exato peso a cada uma dessas coisas, existência afora. 

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