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Franz: Agnieszka Holland faz recorte biografico sobre Kafka

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Quando lançada para o mundo, Agnieszka Holland não se parecia uma promessa, mas já uma certeza. Seu Filhos da Guerra, uma produção polonesa, rompeu padrões ao se tornar um indicado ao Oscar de roteiro adaptado, sem sequer ter sido indicado na categoria internacional. O sucesso de sua visão autoral, a colocou para dirigir sua primeira produção em larga escala, a adaptação O Jardim Secreto, um grande e merecido sucesso. De lá pra cá, Holland voltou a centrar suas atividades na Europa e ultimamente voltou a ficar nos holofotes com seu filme anterior, Zona de Exclusão, que chegou a aparecer em inúmeras listas de melhores do ano. Particularmente, seu novo filme, Franz, parece ter as qualidades que não encontrei no último, e aqui sim sua visão me parece ter pertinência em sua biografia alegórica de um, olhem só, verdadeiro alegorista. 

Sim, o Franz do título é o próprio Kafka que se imagina, um dos escritores tchecos mais prestigiados do século passado e autor de obras seminais como ‘O Processo’, ‘A Metamorfose’ e ‘O Castelo’, entre outros. Para uma mente que produziu ideias tão alucinantes, uma biografia tradicional não faria sentido, e Holland escolhe um caminho bem difícil, que é o de condensar as necessidades de uma leitura mais tradicional e uma visão absolutamente disruptiva do que é contado. Não está também apenas no lugar que se conta, mas especificamente na forma e em como tais imagens podem fazer jus a sua fatia menos formal enquanto autor. Na tela, o resultado é um passeio que pode gerar fascínio em determinados momentos, e em outros encontra refúgio em um espaço mais reconhecível de cinema. 

O filme tem um recorte completo, que geralmente tornam essas peças engessadas em uma estrutura tradicional. A diretora, no entanto, consegue aquela exceção que confirma a regra, demonstrando, aos 77 anos, uma ferocidade estética que não estava lhe acometendo nos trabalhos recentes. Isso acontece porque o roteiro, de autoria conjunta entre Holland e Marek Epstein, não pretende acompanhar sua vida em esquema sequencial, e sim se deixar livre para encontrar personagens e depois não lhes dar mais espaço, abordar eventos que logo serão irrelevantes, pular de forma consciente por um objeto de estudo (ou estudo de personagem) que não se situava da maneira convencional no trabalho. Assim sendo, Franz funciona mais como uma experimentação de ideias libertas do que respeitar uma costura que pretenderia castrar a visão dos artistas – Kafka e Holland. 

Existe a maneira abstrata então de tratar a jornada desse homem tímido e passivo, que escolheu uma vida pacata quase como um contraste ao que lhe fervilhava as ideias. Nesse sentido, a amplitude que a direção de arte de Henrich Boraros lega a Franz é essencial para que esse equilíbrio se estabeleça, em sua visão prática e também no acesso onírico que se abre diante de Kafka. Também é um acerto do projeto que esses aspectos sejam dosados ao que é apresentado ao espectador, o que permite que dois públicos distintos se envolvam com a história. Conhecer a argamassa que forma a obra do biografado, obviamente nos faz adentrar ao mundo extraordinário que a diretora promove, e também à fotografia de Tomasz Naumiuk é um ponto a ser destacado, que intercala o cinza que se arvora pelo escritor, e a profusão de rebuscamento que sua imaginação promovia. 

Do que estava no concreto, fora do universo literário, a relação com ao menos duas namoradas diferentes – em que pelo menos uma delas, é encerrada de maneira trágica por Kafka – com sua irmã e principalmente com seu pai (e o que tal homem promoveu de destruição emocional à toda família) estão em primeiro plano entre o que ele viveu. O pai, vivido com brilhante tratamento do melodrama por Peter Kurth em momentos carregados de tensão, é o principal vetor da desarticulação mental do escritor, que foi tratado como um pária por quem deveria amá-lo. Aos poucos, tal relação começa a se desprender da toxicidade para entrar no terreno da exploração e de um sacrifício que não faz sentido, do ponto de vista moral. Mas que é repleto de camadas psicológicas que fazem de Franz, em diversas passagens, parecer-se uma fita de horror. 

A presença de Idan Weiss é o ponto onde o filme consegue, enfim, manter esse complexo equilíbrio entre a concretude narrativa e a liberdade de experimentação. Seu olhar é forte, e sua postura é inclemente diante das dificuldades apresentadas; sua atuação traduz esse envolvimento difuso que precisa também conquistar quem está do outro lado da tela, por mais que trata-se de alguém que faz uma quantidade considerável de escolhas erradas ou absurdas. É a humanidade que ele emprega a esse cara cuja simpatia não é um ponto forte que amarra os pontos de conexão de quem assiste com a obra de Holland, que não pretendia – e não irá – agradar ao maior número de pessoas. Assim como sua inspiração, Franz é ousado e não pede por tais consensos; talvez por isso também seja tão hipnótico. 

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