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“O Processo”, de Kafka, mapeia a cultura da burocracia

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Dez anos depois de “A Metamorfose” (1915), livro no qual o impasse de um homem tornava-o um inseto, veio “O Processo” (1925), que abre sua prosa com ponderação de culpa: “Alguém certamente havia caluniado Josef K., pois, numa manhã, ele foi detido sem ter feito mal algum”. A narrativa nasce de um manuscrito de 161 páginas (arrancadas de cadernos) que Franz Kafka (1883-1924) escreveu ao largo da I Guerra. A badalada tradução para o português de Modesto Carone (1937-2019), é eivada de claustrofobia. Agora, sua nova versão recente para os palcos vai em igual toada. É, certamente, sufocante, mas gera bem-vindas reflexões. 

Rubens Bonfim adaptou o romance para os palcos, consolidando-o como espetáculo sob a direção de Cecília Terrana, que aproveita com inteligência a exasperação da argamassa literária kafkiana. Em seus aforismos, o pensador de Praga escreveu: “O verdadeiro caminho passa por uma corda que não está esticada no alto, mas logo acima do chão. Parece mais destinada a fazer tropeçar do que a ser percorrida”. Esse é o caminho de Joseph K.  

Kafka foi considerado por Jean Paul Sartre como o pai da literatura moderna

Além disso, há uma outra lição, deixada pelo escritor, que fala de seu personagem (vivido pelo próprio Bonfim): “De um certo ponto adiante não há mais retorno. Esse é o ponto que deve ser alcançado”. Bancário, K. tem uma vida modesta que é interrompida por uma calúnia. Cruzar o portal da lei é sua meta, para alcançar justiça e se expiar. Esta é representada por uma moldura de caixonete, como porta padrão, cujo acesso é negado recorrentemente ao protagonista por personagens vividos por Victor Nalin e Claudio Basttos. 

O interdito deles, numa ciranda de ações (e reações) em busca da verdade, gera, na encenação de Cecília, uma metáfora viva da burocracia que cerca não só o sistema judicial, mas diversos âmbitos da vida social, seja a religião ou o mundo laboral – de fábricas a repartições. Encolhe-se uma subjetividade a cada carimbada de uma sociedade de formulários e de algoritmos.   

A iluminação de Vanessa Miranda desenha, surpreendentemente, esse “encolhimento” da vontade, nas opressões que se impõem à virtude, a partir de uma operação de luz de destreza singular, que acossa Kafka e sua plateia, enquanto a trilha sonora de Afonso Henrique Soares eleva o tônus fervente de uma panela de pressão em acalorada ebulição. 

A mirada quase clownesca da máscara adotada por Bonfim desenha-se numa margem trágica de desesperança diante da condição moderna da percepção das hecatombes silenciosas que os tribunais arbitram, sem empatia. As máscaras de Nalin e de Basttos garimpam o tragicômico, de modo a expor o circo de um sistema desumanizado. 

A permanência de “O Processo” no palco do Teatro Abu coincide com a chegada ao Rio do filmaço “Franz”, da polonesa Agnieszka Holland, que investiga a persona de Kafka e os signos que sua obra fabricou. Peça e longa-metragem se articulam para decifrar uma esfinge da literatura.  

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