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“As Irmãs Pereira” lembra Mauro Rasi, com direção de Pedro Brício dos mais contagiantes

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Deslumbramo-nos logo que a “As Irmãs Pereira” abre-se para a cena com os figurinos de Marcelo Olinto. Os trajes de suas três personagens vestem, surpreendemente o tom da personalidade de cada uma, com um colorido hippie ao mesmo tempo que há sensualidade em tons de preto. Há a austeridade de uma classe média que se pretende discreta. Ao longo da montagem, um tom mais extravagante, algo carnavalesco vai se fazendo notar, enchendo nossos olhos, sem que Olinto perca o riscado jamais. Saiba mais sobre a peça!

"As Irmãs Pereira
Foto Nil Caniné

O regalo que ele oferta a nossas vistas tempera o tom acridoce de acerto de contas de uma comédia divertidíssima (em certos pontos hilária) estruturada sobre o pavimento melancólico do desacerto familiar. O texto de Pedro Brício (que dirige a montagem com Alcemar Vieira) é de uma madureza invejável no trato da fraternidade.

“As Irmãs Pereira” celebra 50 anos de trajetória de Guida Vianna.

Mais do que isso, Brício escreve em sintonia com a tradição de um veio dramatúrgico entre o riso e o melodrama que nos deu Mauro Rasi (em “As Tias”). É difícil apontar escrita mais “rasiana” em nossos palcos, mesmo que traga um cheirinho de Almodóvar, aqui e ali. Não se fala em Bauru, a Londres do bardo Rasi, mas, sim, no Largo do Machado, na Baía da Guanabara e no Chiado, numa narrativa carioca que abalrroa o dilema colonial da herança lusa em nossas gentes. 

As tais Pereira, Glória Edna e Dulce – vividas por Guida Vianna, Clarisse Derzié Luz e uma luminosa Raquel Rocha, as três em estado de graça em cena – têm laços familiares com a “terrinha”. Tiveram um histórico nada “católico” num colégio de freiras e foram expulsas, saindo do Velho Mundo mal faladas. Mas agora, elas têm uma razão das boas para correr as águas do Tejo mais uma vez.

Com a morte da mãe, o trio discute se espalha as cinzas maternas no Rio de Janeiro mesmo ou na geografia fluvial lusitana. A disputa sobre onde dar cabo da urna funerária abre uma deixa para um debate sobre imigração, num estudo das práticas rudes que as autoridades portuguesas fingem não ser xenofobia. É um mote para se debater política numa comediona sobre afetos inflamados, cheia de falas para serem anotadas, entre elas a ideia de que “sonhar é esquecer”.

Em fricção com a delicada cenografia de Marieta Spada, a trinca de estrelas de Brício desafiam a inércia moral de classe onde suas personagens deveriam estar instauradas e rompem com a caretice, numa celebração contagiante da vida em sua fase outonal (que sempre pode ter verões e primaveras). As atuações de Guida, Clarisse e Raquel transbordam energia nessa estação de viço, que só referenda a força de Brício como criador.

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