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“Alta Sociedade” é uma hilária autópsia em corpo vivo da burguesia

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Em sua autópsia em corpo vivo da “família brasileira”, tanto aquela adotada como estandarte da cultura Minion, quanto aquela indiferente a rótulos, Mauro Rasi (1949-2003) sempre elegia um núcleo de empatia plena. Elegia por vezes uma pessoa só (como é o caso da protagonista de “Pérola”), capaz de resistir à excrecência do mundo. Em torno dela, ele desembrulhava as tramas. A obra do Shakespeare de Bauru (SP) se pavimentou, a partir de 1962, com “O Duelo do Caos Morto”, sobre o concreto da crônica da vida familiar, por vezes puxada no tempero agridoce, mas, por vezes, levemente amarga. No caso de “Alta Sociedade”, de 2000, o caminho foi outro. 

O que há de empático no conjunto de sua dramaturgia – vide sobretudo “Viagem a Forli”, de 1993, e “A Dama do Cerrado”, de 1996 – é trocado, nessa comédia cítrica, por uma misantropia plena de empáfia e riso. Autopsiam-se não os desacertos do dia a dia de pais, filhos, esposas, tias, mas, sim, autopsia-se a falência moral deste país. 

Mauro Rasi escreveu “Alta Sociedade” em 2000. Quase trinta anos depois nada mudou. 

Nascida da vontade de Rasi em trabalhar com Fernanda Montenegro, “Alta Sociedade” foi uma das peças de abre-alas do teatro autoral brasileiro do século XXI, com a nossa diva maior ao lado de Ítalo Rossi (depois de André Valli). Segue uma estrutura de radiografia de mundo bem próxima àquela do romance “O Leopardo”, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957). No livro (filmado com esplendor por Luchino Visconti, em 1963), uma frase vira sentença de morte: “Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude”. É esse o ethos de Sylvia e Leopoldo, as personagens do “Vale Tudo” à moda rasiana que “Alta Sociedade” é.

Com a corda toda no palco, Julia Lemmertz e Orã Figueiredo recriam a dupla de personagens dando aos dois uma dimensão quase cartunesca, que se acentua com a dionisíaca direção de arte presente no cenário de Chris Aizner, bem vestido pelo figurino “cheguei!” concebido por Karen Brusttolin numa precisa tradução daquele universo. O design de luz, assinado por Tomás Ribas e Elisa Tandeta, amplifica a aura de perigo imediato de um par apegado aquele fixismo burguês de que falava Lampedusa.  

A Sylvia de Lemmertz lembra a Cruella Cruel de Glenn Close em modo Odete Roitman, com rasgos da Miranda Priestly de Meryl Streep em “O Diabo Veste Prada”. E ela tá engraçada pacas em cena. Orã – que, de costume, é uma máquina de arrancar o riso alheio – faz de Leopoldo um Justo Veríssimo em modo Caco Antibes. A gente ri com ele do início ao fim, mas é uma risadaria que achata a catarse e convida à reflexão.

Numa velhacaria marota, a pilantragem era o modo de ser do casal em cena em seu passado de glórias. Rapinagem, trapaça, golpe. Esse era o jeito de Sylvia e Leopoldo exercitarem uma sanha aristocrática “cancelada” pela História. Nos dois há humanidade (é Mauro Rasi, minha gente!), o que leva a citações apaixonadas de Marcel Proust e de Machado de Assis em cena. São aves de rapina falidas, mas cultas, cuja filha de entregou à maromba (e hoje investe em coxinhas de galinha) e o filho trocou o pó por uma vida no exterior.  

Moradores do Chopin, um tradicional edifício do Rio, eles hoje não têm um pau pra dar no gato. Por isso, estão tentando fugir do país para escapar da Polícia Federal em plena noite de Réveillon. A cada rojão que explode, algo dá ruim nos planos deles. Em cena, na meticulosa direção de Emílio De Mello, esses planos carregam sátiras mordazes a figuras características do cotidiano brasileiro dos anos 2020 (de Daniel Vorcaro a Claudio Castro) numa atualização do texto original feito pela roteirista Amanda Jordão com notável destreza. 

Rasi certamente está ali, com sua grandiosidade artística e sua necessidade essencial de compreender as moléstias existenciais do povo brasileiro. Aliás, o que mudou foi o Brasil em si e Mudou para ficar na mesma. Eis a urgência desta comédia rasgada e inteligentíssima!

Serviço: 1 de Agosto a 27 de Setembro / Sexta e Sábado às 20h30, Domingo às 19h00 / Local: Teatro Vanucci – Rua Marques São Vicente , 52 – 3º andar Loja 371 / Ingressos pela Sympla

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