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“As Marias de Belém do Pará”, de Eduardo Barata, no Sesc Ginástico

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Há encontros que levam uma vida inteira para acontecer. Depois de décadas dividindo estreias, camarins e os bastidores da história do teatro brasileiro, seis mulheres com trajetórias que, somadas, atravessam mais de dois séculos, sobem juntas ao palco pela primeira vez em “As Marias de Belém do Pará – Somos Todos Marias”.

Espetáculo idealizado, escrito e encenado por Eduardo Barata, com colaboração dramaturgia e co-direção de Elaine Moreira, a peça musicada ao reunir esse elenco já é um marco para a história do teatro, transforma a biografia de oito mulheres, Bete Mendes, Ítala Nandi, Ivone Hoffmann, Maria Pompeu, Mariah da Penha, Veluma, Joana Fomm e Hildegard Angel, em matéria-prima para o texto, prestando uma homenagem inédita a este grande mosaico de gerações, experiências e linguagens artísticas fundamentais para os pilares da cultura brasileira. Aliás, as participações de Joana Fomm e Hildegard Angel, certamente, serão especiais, elas subirão ao palco em dias específicos durante a temporada.

Mais do que uma narrativa documental, a montagem celebra o tempo vivido, a potência feminina, os costumes e tradições da Região Norte. “Cada uma dessas mulheres carrega no corpo, na voz e na memória as marcas do tempo. Não vejo isso como fragilidade, mas como trajetória. Quero revelar a humanidade que há nisso. Também existe um encontro entre gerações, porque vamos ter artistas mais jovens em cena”, celebra o diretor, Eduardo Barata, que colocará no palco 26 artistas junto às atrizes, com idades que vão de 23 a 90 anos.

Para o elenco, a montagem corrige uma ironia do destino. “Passamos 60 anos nos encontrando em festas, estreias, velórios e restaurantes, mas nunca tínhamos atuado juntas. Está sendo uma experiência transformadora e totalmente nova”, delicia-se Ivone Hoffmann.

“As Marias de Belém do Pará – Somos Todos Marias” traz ancestralidade no Marajó ao palco carioca.

O espetáculo reverencia a história do teatro e é movido por uma forte ligação afetiva de Eduardo Barata com a Região Norte, que é neto de paraenses, tanto por parte de mãe quanto de pai. A costura poética da peça — que se passa no fictício Condomínio Galharufa, em Copacabana, mas propõe uma viagem dessas mulheres a Belém do Pará por meio de festas populares, fé, cultura, imaginação e música — é fruto da própria história familiar do encenador.

“Este trabalho é uma homenagem à minha ancestralidade paraense. Meu avô materno era ribeirinho da Ilha de Marajó, um caboclo que carregava toda essa força do Norte e meu avô paterno era de Belém. Desde criança, eu sonhava conhecer Belém do Pará. Enquanto muita gente queria ir para a Disney, eu queria conhecer o Pará. Essa ligação atravessa profundamente o espetáculo”, revela Barata.

E para embalar essa história nada melhor do que a música regional, encenada no palco pelo grupo Carimbaby, fundado pela paraense Bárbara Vento, acompanhada pela belenense Camila Gonzalez, Maria Luisa Tonácio e a multiinstrumentista Rohl. “Trabalho com os ritmos da Amazônia há muitos anos aqui no Rio. A peça traz essa musicalidade o tempo inteiro, esse universo do Pará com suas danças e ritmos, o carimbó, a lambada, o lundu. Nós somos de Altamira, do centro-oeste do Pará, e trazemos essa força da mulher paraense, o corpo caboclo da Amazônia”, diz Bárbara.

O diretor musical Marco André reforça esse espírito amazônico com a costura do repertório escolhido por Eduardo Barata. “Este espetáculo me aproxima novamente de tudo o que fiz ao longo dos 42 anos da minha vida artística por meio do cancioneiro paraense, que sempre fez parte da minha identidade. Muitos dos artistas presentes na trilha sonora fazem parte da minha própria história. Para mim, como paraense, este musical me faz voltar a Belém depois de 40 anos. É como estar em casa de novo”, diz Marco André, que produziu o primeiro disco de Dona Onete e fez parceria com ela em composições. Dividiu o palco com Fafá de Belém, teve uma música gravada por Gaby Amarantos num disco do Trio Manari e também produziu para Paulo André Barata, um dos músicos mais prestigiados da região norte que tem canções presentes na peça.

O figurino é assinado por Rute Alves, porta-bandeira vencedora do Estandarte de Ouro 2026 com a escola campeã Unidos do Viradouro. “Pesquisei muito sobre os elementos do   Círio, as cores e as flores do Pará. Usei muita palha, imagens que remetem à bandeira e à Nossa Senhora de Nazaré. Criei uma estampa especial com imagens da cerâmica marajoara para o vestido da Duda Barata, que vive a neta da personagem de Bete Mendes”, conta Rute.

E não é só no figurino que tem uma pitada de carnaval. O cenário criado por Rostand Albuquerque traz partes da escola de samba Grande Rio, que homenageou o Pará em 2025. Os barcos de miriti, que fizeram sucesso na avenida, compõem parte do cenário da peça. “Vamos trazer o Pará para palco, a bandeira do estado, o andor e o manto da Nossa Senhora de Nazaré. Vai ter bastante cor, uma floresta cenográfica de tecido”, define o cenógrafo.

Essa força da cultura amazônica e da religiosidade popular serve de moldura para que as atrizes coloquem suas próprias vivências em movimento. Ítala Nandi celebra o prazer de voltar à cena  homenageando tanto seu eterno lado transgressor como o talento de suas colegas contemporâneas. Maria Pompeu, que retorna aos palcos após um hiato de dez anos, usa o humor para refletir sobre o envelhecimento e a modernidade, enquanto Bete Mendes, na pele de uma síndica rabugenta e divertida, exalta o frescor que só a experiência teatral proporciona: “É aquela coisa viva, o entrosamento de todos, cada dia é um espetáculo diferente. Sou fã de todas do elenco”.

Além disso, o espetáculo também promove o diálogo entre diferentes escolas. Mariah da Penha, que se autointitula “a caçula das Marias”, pontua a importância de sua presença na montagem: “Trago minha vivência no teatro de rua e no teatro popular, como moradora da Baixada, colocando a verve da mulher negra neste cenário”. Já Veluma experimenta um desabrochar artístico. Vinda das passarelas, ela conta que o diretor tem sido fundamental nesse processo: “O Barata pediu justamente para eu levar o meu temperamento para a cena. Sinto que uma  atriz está nascendo em mim”.

O clima de cumplicidade nos ensaios é um dos pontos altos destacados por todas  elas. As atrizes são unânimes em elogiar a escuta e a generosidade de Eduardo Barata na condução do projeto. “Ele soube nos reunir de uma maneira afetiva e maravilhosa. O espetáculo que ele escreveu é sincero, é o nosso jeito de ser”, define Bete Mendes. Ítala Nandi endossa a condução do diretor, comparando sua capacidade de surpreender à de grandes nomes da cena nacional: “Ele tem uma visão muito própria, autêntica. Em alguns momentos, sua criatividade me lembra muito o Zé Celso (Martinez Corrêa) pela capacidade de nos desafiar”.

Ao unir diferentes gerações e estéticas em torno da memória coletiva e da riqueza cultural do Pará, “As Marias de Belém do Pará – Somos Todos Marias” reafirma o teatro como um território de afeto, reverência e reinvenção.

SERVIÇO Temporada: 14 de agosto a 13 de setembro / Local: Sesc Ginástico (Av. Graça Aranha, 187 – Centro) / Dias e horários: Quintas e sextas, às 19h | Sábados e domingos, às 17h / Classificação Indicativa: 12 anos

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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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