- Publicidade -

A Morte de Robin Hood traz versão sombria da lenda

Publicado em:

Em tempos de um tsunami como A Odisseia nos cinemas de todo mundo, talvez a distribuidora tenha feito certo em segurar a estreia de A Morte de Robin Hood para agora. Tematicamente, as produções se encontram e o filme de Christopher Nolan talvez tenha carregado no público uma vontade de épico para o cardápio da cinefilia. Ao adentrar o universo elaborado por Michael Sarnoski (que estreou nos cinemas com o surpreendente Pig) para uma lenda que bate ponto nos cinemas quase uma vez por década, percebemos que a base de seu conhecimento segue sendo o mesmo, mas que esse roteiro carrega mais perguntas que respostas ao material tradicional. Quem, afinal, seria o homem conhecido por tirar dos ricos para dar aos pobres?

É verdade que alguns personagens tornaram-se insuportáveis nas últimas décadas, pelo excesso de refilmagens e revitalizações de seus nomes e marcos. Peter Pan, Mogli, Tarzan, Drácula (e vampiros no geral), já nos causam mais enfado que excitação, e Robin Hood pode claramente ser incluído no grupo. Após o sucesso de Um Lugar Silencioso: Dia Um, no entanto, Sarnoski recebe carta branca para seu próximo projeto, e apresenta um justiceiro da floresta de Sherwood completamente diferente do que já vimos. Através dessa roupagem radical, A Morte de Robin Hood propõe uma reflexão corajosa sobre as desconhecidas origens do mal e de como a pressão do remorso age ao longo da existência. O resultado, na modéstia de seus valores de produção, é impressionante. PS: a modéstia não tem a ver com desleixo estético, muito pelo contrário. 

Tendo a ciência do que se trata o personagem, suas encarnações anteriores e o modo como seu desenvolvimento foi tratado até aqui, o cineasta consegue junto a sua distribuidora/produtora, a A24, o aval para não ter medo de soar cru. Embora Ridley Scott tenha tentado algo próximo na missão de sujar alguém tão fulgurante, A Morte de Robin Hood é um filme efetivamente sujo. Sua abertura não tenta tirar do filme a tendência ao trágico sem disfarces, mas também sem intenção de melodrama: a morte ronda o personagem-título, e muitas vezes ela será perpetrada pelo próprio. A primeira meia hora quase ininterruptamente estamos diante de movimentações condizente a um passado bárbaro, onde a vida e a morte eram separadas por uma linha muito fina, e que suas determinações não são exatamente constituídas de dor posterior, mas de um cansaço e uma sessão de inevitabilidade, além de uma compleição sempre muito feia. Em linhas gerais, não há glória ou beleza na morte; apenas um desfecho terrível de decapitações ou perfurações em estado explícito, sem firulas. 

Essa é a relação que o filme cria não apenas com a imagem, mas com a narrativa e os desdobramentos da relação dos personagens para além do período retratado. Porque A Morte de Robin Hood também lida com as consequências dos conflitos (ou seja, das guerras), esse processo que se herda de gerações anteriores e que continua dizimando povos, sem que as justificativas ainda signifiquem algo; em determinado momento, tem a ver exclusivamente com vingança em seus horríveis derivados. Um exemplo é uma cena dialogada entre o personagem e um novo preceptor de justiçamento; “o homem só se importa com sangue”, diz Hood – e isso é um reflexo de uma vida onde nenhum bem foi justificado pela identidade que o filme cria, a de um bandoleiro indiscriminado. Esse é o momento onde o propósito, que nunca tinha sido esclarecido, se abre para uma redenção pessoal. E o filme mostra que essa é a única saída quando todas as outras vagaram. 

Sarnoski volta a trabalhar com seu colaborador habitual na fotografia, Pat Scola. Juntos eles produzem imagens que cruzam a fronteira entre o que é esteticamente impactante até essa crueza quase mórbida, tanto em tratar os eventos com uma banalidade desconcertante (sejam mortes, solilóquios ou… até tentativas de vida!) que se desmonta pela ausência de luz, e um cinza que traduz uma proximidade do fim. A montagem de A Morte de Robin Hood também entende ritmo de uma maneira absolutamente particular; não estamos diante de um filme de ação hollywoodiano vadio, mas de uma produção que explora as nuances entre as ações e reações de seus personagens, com espaço para a reflexão e até a contemplação, mesmo diante do horror. 

No elenco, Jodie Comer (de O Último Duelo) e Noah Jupe (de Um Lugar Silencioso) continuam trazendo material humano de primeiríssima qualidade aos trabalhos que executam. Hugh Jackman, como o personagem-título, consegue transmitir todo o vazio que hoje habita um homem que viveu produzindo horror em massa, e atraindo para si perpétuas continuações desses atos. Mas é a química entre Jackman e um irreconhecível Bill Skarsgard que não somente desenha o filme, como o marca. O ator dos remakes de It O Corvo volta a surpreender com uma performance sutil, amparada em uma caracterização incrível, em um trabalho que monta a carpintaria necessária para entendermos a lógica dos bárbaros que o filme apresenta. Com a parceria entre eles, A Morte de Robin Hood acende a pequenina chama entre dois personagens consagrados em outros campos de atuação, e que a sensibilidade de um olhar puro trará de levar adiante em novo formato, provando não apenas o poder da contação de histórias, como também do Cinema para difundi-las. 

Mais Notícias

Comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here

Nossas Redes

2,459FansGostar
216SeguidoresSeguir
125InscritosInscrever
4.310 Seguidores
Seguir
- Publicidade -