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“Selvagem”: Uma forma de encenar avessa a lugares comuns

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Goleador, meio-campo, batedor de falta e gandula quando o assunto é usar o teatro pra driblar o marasmo da vida, Fernando Philbert nunca chuta na trave da repetição e dirige (uma peça após a outra) sem xerocar a si mesmo, construindo uma das mais prolíficas obras entre os encenadores de estilo (e fôlego) das artes cênicas da atualidade. “Selvagem” assegura seu placar vitorioso, sobretudo em sua forma transversal de atravessar uma literatura preservando o texto não como eixo de um dialogo transdisciplinar com o palco, mas como um elemento de cena. Aliás, não é um texto que se encena classicamente, enxertando gesto às palavras, qual um embutido trágico. Sua forma de dirigir uma luminosa Gabriela Rosas é deixando-a dar corpo (e voz) à vida que existe perpendicular ao livro homônimo de onde a trama vem.

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Além disso, é um procedimento parecido com que Aderbal Freire-Filho faz em seu “Romance Em Cena”, a se destacar o colossal “Púcaro Búlgaro”, de 2006. Gabriela “vira” a obstetra Mariana, decalcada do livro (finalista do Prêmio Jabuti de 2023) “Selvagem”, de Marília Passos, a quem o texto do espetáculo é atribuído. O uso de aspas no verbo “virar” se faz ativo e vivo por que não é uma mimese clássica. Há, certamente, um distanciamento muito inusitado (mas inclusivo, atraente) que vem da forma com que Gabriela narra o Mariana é e o que passou. É quase como se alma da gente se pudesse a descrever o nosso modo de estar. É, de fato, uma personagem que se autopsia viva.    

Catapultada pela direção de movimento de Monique Ottati para um espaço de progressões aritméticas e geométricas de descoberta das potências do gesto, Gabriela deixa Mariana falar a dor que deveras sente… e suas alegrias também. A iluminação do Midas da luz Vilmar Olos faz com que a gente nunca perca de vista os olhos dela, a expressarem cachoeiras sentimentais do tipo mais difícil de se represar. A gente vê a Mariana ali, mas a troca simbólica que ela faz com a gente não é o ato, não é o presente: é a memória. 

Num marco do minimalismo, a cenografia (sagaz) de Natália Lana leva a plateia até uma África que não se vê nos livros de Geografia. Desencantada com o casamento e com a vida que construiu no país, ao lado de um marido psiquiatra mané, Mariana sai mundo adentro em busca de uma ruptura. Acaba por se voluntariar para uma missão dos Médicos Sem Fronteiras no Sudão do Sul, país marcado pela guerra civil. 

A partir daí, o que poderia ser apenas uma narrativa sobre trabalho humanitário se converte em uma história de autodescoberta, desejo e reinvenção. Longe de suas referências habituais, Mariana precisa enfrentar uma realidade violenta, imprevisível e hostil, ao mesmo tempo em que se envolve com Nino, médico brilhante e enigmático que passa a funcionar como catalisador de uma transformação que já estava em curso. 

O amor deles evoca um filme lindo, só lançado aqui na TV e em streamings, chamado “The Last Face”. Há dez anos, em Cannes, seu diretor, o ator, Sean Penn provocou uma das recepções mais controversas daquela edição do festival com esse drama. Sua trama colocou médicos humanitários diante das guerras africanas e fez do amor entre dois profissionais de saúde o eixo de uma narrativa sobre engajamento, ética e sobrevivência. Em competição na Croisette em 2016, o filme acompanhava um clínico (Javier Bardem) e a diretora de uma organização humanitária (Charlize Theron) em meio ao conflito no Libéria, com passagens também pelo Sudão do Sul. 

A aproximação entre a experiência de cinema de Penn e a peça “Selvagem”, porém, não está apenas no cenário de crise ou na presença de profissionais da Medicina: está sobretudo na ideia de que uma situação-limite pode alterar radicalmente a percepção que uma pessoa tem de si mesma. É justamente nesse território que se instala o monólogo dirigido por Fernando Philbert.

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