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“O Filho” aborda saúde mental na adolescência

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A montagem brasileira de “O Filho” (Le Fils), com texto premiado do dramaturgo francês Florian Zeller e direção de Léo Stefanini, enfim estreou, no Rio de Janeiro. A produção traz para o palco temas delicados e urgentes, como a depressão na adolescência, o isolamento social, o impacto das telas e o desgaste das relações familiares. Porém, a força dramática do texto sofre em cena com um início engessado e atuações que demoram a encontrar fluidez.

O que esperar de “O Filho” com direção de Léo Stefanini?

Do sucesso de Meu Pai a filme estrelado por Hugh Jackman. 

Para entender o peso da produção, vale lembrar que Florian Zeller é um dos nomes mais celebrados do teatro e do cinema contemporâneos. O autor francês é o criador da aclamada trilogia familiar formada pelas peças O Pai, A Mãe e O Filho. O primeiro texto ganhou repercussão mundial nas telonas em Meu Pai (The Father), filme que rendeu o Oscar de Melhor Ator a Anthony Hopkins e o de Melhor Roteiro Adaptado ao próprio Zeller.

No Brasil, o diretor Léo Stefanini já havia comandado uma adaptação teatral de sucesso de O Pai, protagonizada por seu pai, Fúlvio Stefanini. Em O Filho, obra que também ganhou versão cinematográfica estrelada por Hugh Jackman e Laura Dern, Stefanini assume o desafio de transpor para o palco um drama denso sobre a impotência dos pais diante do sofrimento dos filhos.

A história acompanha Nicolas, um jovem de 17 anos em sofrimento psíquico profundo após o divórcio dos pais. O rapaz passa a faltar à escola, isola-se no quarto e se apoia no uso excessivo de telas. A convivência com a mãe logo se torna insustentável, embora esse atrito não apareça em cena. Nicolas decide, então, morar com o pai, que já tem uma nova companheira e um bebê recém-nascido.

O texto levanta debates indispensáveis sobre a depressão na adolescência, a dificuldade de comunicação geracional e o sentimento de culpa de pais que tentam lidar com um problema complexo por meio de soluções práticas do dia a dia. Eles buscam, sem sucesso, consertar uma dor que não compreendem, mas falham na escuta.

Análise das atuações: Por que o ritmo demora a engrenar no palco?

Apesar da relevância incontestável da narrativa, a encenação enfrenta dificuldades na sua primeira metade. O texto soa excessivamente duro na boca dos atores, passando a impressão de réplicas travadas e pouco espontâneas.

Chama a atenção o descompasso cênico nos primeiros blocos, especialmente porque o elenco já vem apresentando essa mesma montagem por palcos de diversas cidades brasileiras ao longo de vários meses. Mesmo com a bagagem acumulada durante a turnê, a maior parte das cenas parece uma leitura protocolar. Falta maleabilidade nas trocas para que o público se conecte de imediato com a fragilidade daquela família.

Gabriel Braga Nunes interpreta o pai, Pedro, um homem pragmático. O personagem tenta solucionar a crise do filho usando autoridade e lógica, sem realmente entender a dor do garoto. Maria Flor vive Sofia, a mãe exausta que se vê de mãos atadas diante do fechamento do filho (papel que conta com Maria Ribeiro em sessões alternadas aos domingos). O jovem Andreas Trotta interpreta Nicolas, o protagonista em crise.

Completando o núcleo central, Bruna Miglioranza interpreta a madrasta, Sofia, que tenta equilibrar os cuidados com o bebê e a rotina da nova casa enquanto lida com a presença silenciosa e perturbadora do enteado. A dinâmica entre o casal e o jovem ilustra o desconforto da convivência, mas as primeiras interações cotidianas soam sem o calor e a naturalidade necessários.

O clímax emocional resgata peso dramático no segundo ato

O ritmo da peça ganha consistência a partir da segunda metade, quando as tentativas de diplomacia dão lugar ao confronto direto. Quando as tensões explodem, o elenco finalmente encontra o tom e a densidade que a dramaturgia pede.

Os embates entre pai e filho, somados às conversas dolorosas sobre internação hospitalar e os limites do suporte familiar, ganham crueza e peso dramático, apesar de ainda soarem pouco naturais. Nesses momentos de choque, a montagem se esforça para alcançar o impacto dramático característico da obra de Zeller.

Se a atuação oscila, a estrutura técnica da peça merece reconhecimento. A cenografia aposta em linhas funcionais e elegantes, permitindo que as transformações de espaço aconteçam sem interromper o andamento do espetáculo.

A iluminação desenha com precisão atmosferas frias e intimistas, traduzindo visualmente o isolamento e o peso da angústia presente na rotina dos personagens. O recurso dos letreiros luminosos para indicar a passagem do tempo e as trocas de locação também funciona com agilidade, organizando a narrativa com clareza para a plateia.

“O Filho” se sustenta pela coragem de encarar a saúde mental na juventude de frente, sem apelar para lições fáceis ou sentimentalismo raso. Embora a montagem tropece na fluidez dos diálogos, a força dos embates na reta final e a precisão dos elementos técnicos garantem uma experiência teatral profunda. É um espetáculo que convida o público a refletir sobre escuta, empatia e os desafios da convivência familiar.

Saiba mais sobre a peça!

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