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Mirrors No. 3, novo drama de Christian Petzold, chega aos cinemas

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Espelho é um objeto que organiza a luz colocada em frente à sua superfície, permitindo assim refletir a imagem das figuras que se colocarem defronte a ele. Também pode ser uma forma de linguagem para tangenciar situações que se permitirem comunicação entre elas, uma a espelhar a outra. Mirrors n.3 é o novo filme de Christian Petzold, cineasta que há mais de uma década encanta festivais e circuitos com histórias bem mais complexas do que suas sinopses definem. Não há um de seus filmes que tenha a forma direta do que está sendo contado, permitindo assim que suas obras sejam vistas mais de uma vez com novas significações e resultados de análises sempre complementares. Aos 65 anos, o alemão resolve montar duas histórias em uma, onde o protagonismo nunca seja bem definido, porque seu interesse é no espelhamento entre as narrativas complementares. 

De um lado temos Laura. Do outro lado, Betty. Laura está fisicamente incomodada, procurando seu reflexo no mundo e não encontrando – essa é literalmente a abertura do filme; quer dizer, não tão literalmente assim. Ela está visivelmente deslocada do que está vivendo, uma viagem que não faz sentido, ela sente que perdeu algo… a si mesma? Betty efetivamente perdeu algo, mas nem isso não é tão recente quanto o filme mostra; lhe falta identidade também, e ela já não é mais jovem como Laura. O encontro entre essas duas mulheres após um fatal acidente de carro as faz perceber que era autonomia que lhes escapava. Uma mulher jovem é refém das normatividades sociais: namorar, ser feliz em dueto, se realizar em um registro castratório. Uma mulher de meia idade é refém de regras do passado: sua família é seu porto seguro, e ela deve mantê-lo para provar ser capaz não apenas de ser feliz, como de prover felicidade. 

Petzold indaga sobre esses arquétipos normativos para o feminino não apenas no hoje, mas no ontem e principalmente no amanhã. O que Laura e Betty encontram ao se verem refletidas em Mirrors n.3 são ausências que talvez elas não sabiam mensurar. O cineasta indaga as entrelinhas, em cenas que parecem desprovidas de propósito, mas entregam grandes significados, como o olhar da namorada do amigo de Laura para ela no cais; ou a maneira fraternal como Max se relaciona com ela, para explodir em fúria e estranhamento na sequência; a súplica de Betty em uma performance, que talvez se relacione com uma prisão que ela mesma vive, como se precisasse assistir ao voo de alguém e buscar inspiração. É um quebra-cabeças de sofisticação rara, mas que forma a filmografia do cineasta, porque mostra um inconformismo com as regras narrativas, que o obriga a testar os limites muito particulares de percepção. 

O filme vive dentro de esquemas que são muito maiores do que o ‘grande quadro’, expressão essa utilizada para mostrar que nada é o que parece em cena. Ou que o detalhamento das ações importam bem mais do que a sinopse tradicional; quem morreu importa bem menos do que os vivos, esses sim são o mote aqui. Entrar na existências dessas duas mulheres e entender que suas narrativas gritam por um protagonismo que não lhe foi dado é primordial para acessar com qualidade as fissuras de Mirrors n.3, porque nada é o que parece no cinema de Petzold; essa é uma marca. Então nos cabe o maravilhamento de assistir ao novo corpo que essas protagonistas passam a ocupar quando se dão conta que o seu potencial vai além de servir ao outro, e começam a exigir o mesmo para si. Particularmente, abri um sorriso bem largo quando Betty determina a viagem final que sua família fará; uma mulher de 60 tomando as rédeas de seu núcleo é ainda mais significativo no nosso mundo. 

Existe um universo ainda mais escondido dentro de Mirrors n.3 que é a forma insidiosa com que homens exercem seu papel igualmente social no universo. Desde um pai de família que decide abrir mão da organização natural de seu núcleo e se aparta da esposa, até um filho zumbificado que não encontrou seu lugar no mundo. Mas nada é mais radical do que o homem morto que ainda assim exerce poder decisório (ainda que sem performance) sobre o corpo de quem fica; o olhar do namorado de Laura, aquele último que Petzold filma e que já não abriga mais vida, é uma maneira de ainda tentar domesticar algo que não lhe pertence. São homens que, de uma maneira ou de outra, estão à frente de seus pares porque a eles sim cabe a grande missão de poder escolher seu destino. 

Que um filme aparentemente tão simples (“mulher sobrevive a um acidente fatal e misteriosamente passa a viver na casa de outra mulher, que a salvou”) envolva uma gama de sensações e discursos em sua entrega, é da ordem dos filmes de Petzold. Ainda que aparentemente sugira um menor arrojo estético ou narrativo, Mirrors n.3 – um filme que assisti duas vezes; recomendo fortemente a segunda sessão – é um exercício incomum para os padrões do que se entrega ao Cinema hoje. Ele não está na prateleira mais fácil do que é produzido, ao mesmo tempo em que nada rebuscado intelectualmente seja dito ou mostrado. Christian Petzold é um cineasta que mergulha através de seus planos e personagens na psiquê o mundo de hoje, olhando os cenários, ora mundanos, ora extraordinários, de maneira a capturar a essência do que é vivido ali. Tem sim uma experiência quase metafísica em assistir seus filmes, no que concerne você precisar sair da zona de conforto em sorver apenas o que está no primeiro plano; é pouco para discussões tão ricas. 

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