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“Café, Almoço, Jantar” percorre quatro décadas do Brasil

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O Brasil visto de dentro de uma família é a partir dessa perspectiva que “Café, Almoço, Jantar”, com texto de Ivan Fernandes, percorre três momentos da história recente do país para investigar como transformações políticas, econômicas e sociais repercutem na vida, nos afetos e nas escolhas de pessoas comuns.

A trama se desenvolve em torno de um pequeno restaurante comandado por Dona Filó, personagem que atravessa as três fases da narrativa e testemunha as mudanças de uma família ao longo de 31 anos. Dividida em três episódios — “Café”, “Almoço” e “Jantar” —, a peça se passa em 1987, 1994 e 2018, estabelecendo uma relação entre os acontecimentos do país e as transformações vividas pelos personagens.

“A ideia de contar essa história da família com pano de fundo do Brasil. Queríamos mostrar o resultado de anos de diversas políticas na vida de uma família brasileira, de 1987 para cá. Como um restaurante pequeno sobreviveu a tantas questões econômicas ao longo das décadas, desde o governo Sarney?”, explica Ivan Fernandes.

A proposta, segundo o autor, é abordar esse percurso histórico sem tomar partido ou reduzir os acontecimentos a uma oposição simplista. “Falamos sem maniqueísmo político”, afirma. Mais do que uma narrativa sobre acontecimentos históricos, “Café, Almoço, Jantar” mergulha nas relações familiares e em personagens que representam arquétipos facilmente reconhecíveis.

“Todos os personagens refletem arquétipos familiares: a figura da mãe solteira que segurou moralmente e economicamente a família, o filho dela, um homem encostado, malandro, que se aproveita da dependência emocional, é aproveitador, afetivo, mas explora a mãe, que ele só procura quando precisa; nós temos a figura do jovem rebelde, da ovelha negra, que quer ser diferente, ir para Nova York; e temos a figura do Américo, que é cortado do convívio social de uma família, por causa de sua orientação sexual, mas que tem a sorte de ser adotado pela dona deste restaurante, e vira um ponto positivo”, explica Ivan.

O primeiro episódio, “Café”, se passa em 1987, nos primeiros momentos da Nova República, após vinte anos de ditadura militar. Filó recebe no café da manhã o filho-problema, Paolo. Ele revela que descobriu recentemente ter um filho, Hermes, fruto de uma relação com uma guerrilheira de esquerda desaparecida durante a ditadura. Paolo pede que a mãe fique com a criança por uma tarde enquanto resolve problemas particulares. O que deveria ser um arranjo provisório, no entanto, muda definitivamente os rumos daquela família.

Em “Almoço”, ambientado em 1994, o país vive um novo momento econômico com a estabilização da inflação provocada pelo Plano Real. Filó organiza um almoço para Hermes, que cria desde 1987, quando Paolo o deixou no restaurante “por uma tarde”. Ela pretende aproveitar a ocasião para que seu pai, um militar, encaminhe o neto para uma academia de oficiais. Hermes, porém, tem outros planos para a própria vida. Com a ajuda de Américo, garçom, melhor amigo e uma espécie de tio escolhido, anuncia que está de partida para Nova York.

O terceiro episódio, “Jantar”, chega a 2018, período marcado pela ascensão da extrema direita no Brasil e no mundo. Após a morte de Filó, o restaurante está prestes a ser vendido. Hermes, agora professor de literatura estabelecido nos Estados Unidos, retorna ao Brasil para reencontrar Paolo, seu pai, pela primeira vez desde a infância. O encontro entre os dois coloca em questão não apenas o futuro do restaurante, mas também as histórias, mágoas e afetos acumulados ao longo dos anos.

Na criação, Maíra Kestenberg ficou mais próxima da construção estética da encenação, enquanto Ivan Fernandes se dedicou principalmente ao trabalho com os atores. O processo, segundo o autor, também revelou uma dimensão afetiva mais profunda na relação entre os personagens.

Ao longo de três episódios, “Café, Almoço, Jantar” fala sobre aquilo que permanece quando tudo ao redor muda — os vínculos, as feridas, os afetos e a difícil tarefa de aprender a deixar o outro seguir seu próprio caminho.

Serviço
Temporada: 1º a 23 de setembro
Local: Centro Cultural Justiça Federal
Endereço: Av. Rio Branco, 241 – Centro, Rio de Janeiro
Dias e horário: terças e quartas, às 19h
Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia)
Classificação: 14 anos
Duração: 70 minutos

Rota Cult
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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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