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‘Fim de Partida’ não transcende a dialética da (mútua) submissão

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Apesar de Guilherme Weber se transubstanciar em cena à luz de sua excelência, tornando-se um desenho animado de carne, de osso e de gestual hilariante na atual montagem de “Fim de Partida”, como se fosse um Patolino beckettiano, essa visita brasileira a um pilar teatral pós II Guerra não se dessacraliza da condição de cânone, nem ri de si mesmo. 

A brechtiana Helena Ignez, musa de nosso cinema, tira sarro (com esperteza) do texto em sua boca. Distancia-se de quem bate cabeça praquele absurdo em cena. Ary França, Pernalonga nato, faz seu “Looney Tunes” nas (sempre sagazes) participações que tem, enquanto Marco Nanini, não. Aliás, tem Lineu demais ali. Está patafísico demais para quem o viu sendo Willy Loman em “A Morte De Um Caixeiro Viajante”, em 2003. Seu Hamm é o funcionário público que carimbou sua sentença de fixismo. Beckett não dever ser fixo, deve ser gerúndio. 

O dramaturgo irlandês Samuel Beckett escreveu “Fim de Partida” sob o impacto da Segunda Guerra Mundial.

Temos em nossos palcos um dos movimentos mais pícaros do que se convencionou chamar de Absurdo. Dali veio “O Círculo de Rins E Fígados” (2005) de Gerald Thomas e muitas invenções cênicas correlatas. De alguma forma, até “O Púcaro Búlgaro”, encenado há uma década por Aderbal Freire-Filho (1941-2023), bebia desse jogral existencialista do irlandês Samuel Beckett (1906-1989), ou almejava doer como ele dói e bater como ele bate.

Muitas alegorias cabem na premissa dramatúrgica que Beckett swiftianamente refinou de 1954 a 1956 e que Rodrigo Portella (de “As Crianças”) agora encena, produzido por Fernando Libonati, da Pequena Central. O ponto mais alegórico do calvário de quatro almas danadas confinadas num abrigo é o paralelismo do Senhor e do Escravizado (ou seria do Suserano e do Vassalo) ali presente. É, certamente, o mesmo conceito que Friedrich Nietzsche (1844-1900) enxergava na dependência (mútua) entre a ave de rapina e o cordeiro. 

Nietzschianamente pensando, o mestre só é senhorial por ter um operariado que o trata como tal, que o põe no trono da subserviência. A brasilidade avacalhou tal estamento quando Raul Seixas (1945-1989) cantou “a Formiga só trabalha por que não sabe cantar”, pois, do contrário, seria Cigarra.

Em “Fim de Partida”, Hamm é senhor e Clov, objeto de seu patrimônio e de sua vaidade. Dali espera-se que Nanini se emposse da lucidez que recebeu de Georges Perec (1936-1982), ao montar “A Arte e a Maneira de Abordar seu Chefe para Pedir um Aumento” (2013), e esculhambe a apatia desse acordo secular, mas a esculhambação não vem. 

Portella parece ter uma fascinação por microcosmos que traduzam conflito de desejo encruado e acorrentado. Foi assim o lamaçal do “Tom Na Fazenda” que o consagrou como um dos mais argutos diretores da contemporaneidade. É alguém que pensa o verbo para além de suas conjugações mais estetizadas, seja na norma culta ou na norma vulgar, libertando as palavras na boca de seu elenco. Gesto com ele vira Karatê… Seu dojo é “Karatê Kid”: poesia pura. 

A prisão de “Fim de Partida” é o 6 x 1 das jornadas laborais de hoje… é o nosso confinamento à alienação digital (em escala 24 x7)… é a toxidade do querer o que não quer, da falta de troca. À moda do que se lê em Beckett, suas personagens, cansadas de tudo, vivem presas em um abrigo à beira-mar. Estão enlatados, como nós a consumir algoritmos. 

Travam diálogos fustigados, ainda que alguns soem ambiciosos, sobre a condição humana, mas não se rebelam. O prostrado Hamm (Nanini) é um artista fracassado. Encontra-se cego e paralítico. Clov (Weber, em estado de graça) é seu serviçal, e possui uma doença que não o permite sentar. Nagg e Nell (vividos por França e Helena Ignez) também têm mutilações, o que impede a locomoção de seus planos. Trancados numa cela de apatia, não atingem o estado de insulamento lírico. Vivem nas franjas de uma mudança de maré que nunca muda.

Como em “Tom Na Fazenda”, vemos vítimas de um apocalipse emocional, num abraço de afogados. Beckett queria que olhássemos para eles como o Anjo da História, o Angelus Novaes, de Paul Klee (pintura determinante do iluminismo da Modernidade) mira a raça humana: com temor e tremor, pronta para cantar pra subir. Portella não encontra asas para voar. Fica em seu engenho barroco, aquecido pelas cores da direção de arte e cenografia de Daniela Thomas.

Além disso, há quentura na iluminação de Beto Bruel também. Ela abriga aqueles cães famintos, apazigua suas guerras. Esperava-se que, pelas vias do riso, algo de bélico incandesce. O peso da História (o peso da nossa paralisia) não deixa.  Ousa-se na trilha original e na direção musical de Federico Puppi. Ousa-se no modo Acme de Weber. Há que se ousar mais… sobretudo com um titã como Nanini a atuar.

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