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NAZA aborda a morte de civis pelas forças israelenses

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Talvez realmente estejamos testemunhando parte da História político-cinematográfica diante de NAZA, novo filme dirigido pela dupla Yuval Abraham e Rachel Szor, vencedores do Oscar de dois anos atrás por Sem Chão. O que foi conseguido por eles e seus companheiros Basel Adra e Hamdan Ballal no filme anterior era algo de fato impressionante, ao aproximarem-se Adra e Abraham numa amizade improvável, com a tentativa de denunciar os massacres ocorridos em Masafer Yatta por soldados de Israel. Dois anos depois, eles lançam novo petardo de longo alcance no Festival de Veneza, saem premiados com o Prêmio do Júri e mostram que não estamos ainda nem perto de conhecer toda a barbárie que ocorre naquela parte do mundo. 

Mais uma vez Abraham se coloca na linha de frente das possibilidades de angariar retaliação ao confrontar-se com soldados israelitas dispostos a quebrar o silêncio para tornar públicas ações do exército. Inteiramente filmado no terraço de prédios de Tel Aviv, NAZA é um compêndio de monstruosidades estarrecedoras narradas por tais soldados, que assumem parte do genocídio sistemático de civis palestinos em sessões que, de tão frias, tornam-se ainda mais absurdas. São longos diálogos entre esses homens (e ao menos uma mulher), que encontram com o diretor e se abrem para revelar o ‘modus operandi’ diário de uma verdadeira máquina de matar perpetrada contra um povo. 

As lentes comandadas por Szor e Abraham revelam o desprendimento da maior parte desses momentos de uma conexão emocional qualquer com o que é dividido entre eles – e, em consequência, com o mundo. Isso porque o sugestionamento das imagens não os personaliza; ao invés disso, une suas especificidades até que não haja qualquer caráter particular. A intenção não é tirar a humanidade de cada um ali (embora não exatamente essas pessoas tenham qualquer traço disso ainda), mas de que sejam vistos como a massa disforme comandada por forças superiores e que não lhes resta qualquer traço de subjetividade. Durante o filme, tais figuras vão passo a passo abrindo mão de algo que os aproximassem do humano. 

Existe também um outro propósito na aparente destituição de proximidade do filme para o que está sendo contado. Os personagens narram eventos como a explosão de um prédio ou a ação que levou a morte de 500 civis de uma só vez com uma reação parecida a de bocejar; nada os calibra de qualquer emoção que seja. Em determinado momento, eles sugerem que são práticas tão distanciadas que eles as comparam a de jogar um videogame, já que nada é efetivamente visto. A distância que provoca essa imobilidade e ausência de empatia, é a mesma que NAZA quer incutir no espectador, que também está no vazio das imagens, sobrevivendo com a força das narrações. 

Essa tática proposital até pode afastar parte do público, mas são falas que muito dificilmente sairão da lembrança do espectador. Tanto por apresentarem que tais atrocidades são vistas de maneira tão banal, quanto por envolver o filme em uma capa de proteção livre das imagens que tão mal fizeram a, por exemplo, 20 Dias em Mariupol com sua sucessão de cinismo. NAZA guarda seus últimos 5 minutos para tragar o espectador para essa experiência tão desconcertante quanto dolorosa. Tudo então é ressignificado ali; sai toda a frieza, e o filme é reconfigurado para que possamos estar ao lado de cada um dos muitos exterminados dentre os muitos relatados. 

Aliás, o que significa então a expressão NAZA que nomeia o filme? Trata-se da maneira como os soldados encontraram para não citar os efeitos colaterais da guerra em céu aberto; NAZA é a maneira com a qual eles chamam os “efeitos colaterais”, leia-se civis mortos. A maneira como a palavra vai se construindo para o público, perdendo seu horror inicial e enveredando também ela em um buraco sem volta. A pandemia nos ensinou que nenhum número de mortes deveria ser tratado como algo natural, e NAZA mostra que aqueles personagens não conseguem mais sair desse arsenal de pavor.  

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