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Se Eu Fosse Você 3 se apossa da nostalgia

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Assistir a Se Eu Fosse Você 3 é como entrar em um túnel do tempo, no bom e no mal sentido, e cada um desses lados tem mais de uma opção de vertente. Por um lado, temos o reencontro com Cláudio e Helena, ou melhor, Tony Ramos e Glória Pires, voltando a interpretar personagens que o cinema brasileiro consagrou com mais de 10 milhões de espectadores. Em uma franquia que praticamente inventou o conceito das mesmas após a retomada do cinema brasileiro, é mais uma prova da nostalgia que assola o cinema como um todo que esse filme finalmente seja revisto para novas plateias e também para os fãs dos anteriores. Dito isso, e para quem procura uma opção de entretenimento tradicional, o filme cumpre seu papel. 

Mas é praticamente impossível olhar para o filme dirigido por Anita Barbosa e não ver um modelo de cinema antiquado dentro da própria lógica de mercado que ele representa. Quando os primeiros Se Eu Fosse Você foram lançados, o cinema brasileiro estava voltando a se fortalecer, e os filmes dirigidos por Daniel Filho se tornariam o primeiro modelo de franquia de humor da Retomada; nesse sentido, foram exemplares em seu tempo. Vinte anos após tais eventos, temos a certeza de que Se Eu Fosse Você 3 se apossa da nostalgia que fará com que o público original volte a se encontrar com os personagens primeiro traindo-o, simplesmente porque Cláudio e Helena não são mais os protagonistas do filme, e sim sua filha Bia e o ‘namorido’ dela, Aquiles. Vividos por Cléo Pires e Rafael Infante, os atores estão bem, mas a todo momento a presença de Glória e Tony nos lembra qual era o encanto original; e ainda bem que os originais ainda se mostram, aqui e ali. 

Além disso, Se Eu Fosse Você 3 em nada deve ao que os originais ofereceram, mas isso não é um elogio. Colocando melhor, o gênero comédia popular (muitas vezes associada à Globo Filmes, ou popularmente falando, as “globochanchadas”) já não está mais exclusivamente associado a esse modelo carcomido. Não há mais – ou não deveria haver – uma fôrma antiquada quanto a que esse filme aqui faz parte: um título esteticamente sem qualquer tipo de tratamento gráfico que produza algum diferencial. Aliás, temos a impressão de que o filme foi rodado às pressas, sem qualquer pensamento maior que o eleve enquanto experiência cinematográfica, e que isso ainda significa um tratamento inferior dado ao espectador que encherá os bolsos dos cinemas esse fim de semana. Porque um filme de caráter popular não pode ter um cuidado estético? 

Uma das maiores bilheterias da História do nosso Cinema, Minha Melhor Amiga caminha para os 6 milhões de espectadores e mostra onde podem estar os títulos que buscam o público de uma maneira mais direta, hoje. Mesmo Um Tio Quase Perfeito 3, que estreia no mesmo fim de semana que Se Eu Fosse Você 3, conta com o cuidado de Pedro Antônio na direção. Aqui, Barbosa parece herdar a pressa que esses filmes eram despejados no mercado, sem motivar uma montagem eficaz ou um trabalho de fotografia destacado; pelo contrário, o filme tem uma edição no mínimo canhestra, que tira do filme uma espécie de moldura de cena, deixando apenas o miolo no corte final. As cenas parecem iniciadas, muitas vezes, de um ponto sem preparação prévia, como se partissem de um corte em andamento. Em resumo, o resultado parece amador. 

No roteiro, Leandro Soares apenas reproduz situações padronizadas que os filmes anteriores também teriam pesquisado para justificar as trocas de personalidades. O que é um avanço relacionado aos filmes originais é que dessa vez, os personagens não são chapados em suas descrições. Tanto Bia quanto Aquiles possuem dados que fazem deles ao mesmo tempo tipos pesados e frágeis, duros e românticos em suas definições. Ainda é pouco para tornar Se Eu Fosse Você 3 um programa que faça jus ao que o tempo construiu com seus filmes originais, que continham além de tudo com a cumplicidade e química que Glória e Tony desenvolveram em anos posteriores através da teledramaturgia. Independente de Cléo e Infante estarem bem, não se repete aqui a carga de ver dois grandes atores em versões cômicas. 

Em um momento em que o cinema brasileiro de pretensões industriais precisa estar em pé de igualdade com super heróis, épicos grandiosos e outros apelos à nostalgia universal, Se Eu Fosse Você 3 oferece ao público muito pouco. Suas credenciais residem no reencontro com protagonistas (reduzidos a coadjuvantes), em um gancho que deu certo e na simplicidade de suas intenções. Quando essa mesma simplicidade está empregada não somente nos seus valores mas também nos valores de produção, é que nos pegamos perguntando se o que vimos aqui não é um um retrocesso de realização. 

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