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O Outro Lado das Redes é um filme sobre a importância do jornalismo

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Aaron Sorkin escreveu um dos roteiros mais pertinentes e concisos da década passada, indo direto ao ponto em uma questão cada vez mais crucial para a moderna sociedade em que vivemos: no futuro, nossa dependência emocional estaria nas mãos das máquinas. A Rede Social ainda é um fenômeno enquanto realização de cinema, na cirurgia precisa entre as imagens concebidas por David Fincher e o texto corrosivo de Sorkin. Os anos se passaram, e Sorkin enveredou pela direção de cinema, nunca conseguindo repetir esteticamente o que seus roteiros dirigidos por outras pessoas evocavam, na urgência que eles eram burilados (outro exemplo, o Steve Jobs de Danny Boyle). Agora, o roteirista volta a encontrar Mark Zuckerberg em nova obra de ficção, sem o apoio de Fincher na constituição das imagens, e O Outro Lado das Redes representa o seu cinema. 

Dentro de um contexto que ainda causaria algum interesse pela maneira como as redes sociais acabaram adentrando um universo legal poderoso e de tentáculos cada vez mais abrangentes, esse novo encontro teria força parecida com o que mostrou seu surgimento. Dessa vez, mostrando que essa gravidade emocional que nos enreda às redes sociais também é utilizada como material de manipulação e dominação social. Mas não é surpreendente que Sorkin não consiga ter o mesmo sucesso em seus roteiros assinados para outrem dirigir, que nos que ele acaba por se debruçar. Desta forma, O Outro Lado das Redes perde boas oportunidades de discussões aprofundadas, narrativa ou imageticamente, sobre esse novo olhar; o que é entregue não passa de burocracia. 

O cinema de construção política, aquele autor que foram Sidney Lumet e Alan J. Pakula nos anos 70, que faziam alegorias sobre investigação jornalísticas com muito do que já conhecemos em clássicos como “Todos os Homens do Presidente” e “Rede de Intrigas”, não é reproduzido aqui de nenhuma maneira. O que sobra para o espectador é acompanhar uma jornada pouco inspirada e dois estudos de personagens (ok, definitivamente mais focado em um único) onde as atribuições de linguagem cinematográfica estão aplicadas com a virulência necessária, e um estado de tensão conveniente ao tema, apenas na cena de abertura. Tudo o que “O Outro Lado das Redes” poderia e deveria ser para alcançar relevância está no impactante encontro entre uma mulher na beira da estrada e uma dupla de policiais.

Essa cena é reproduzida algumas outras vezes no filme para potencializar a área que o filme se insere, da perda de controle que as redes sociais estão entregues hoje. É de verdade uma cena que poderia acontecer de igual maneira na vida real ao qual estamos subjugados, e é ela quem captura nossa inquietação inicial. Aos poucos, percebemos que sua força se encerra em seu próprio quadrante, e o que vem depois dela não encontra respaldo naquela mensagem inicial. O filme parte para mostrar a dupla de cavaleiros que pretende colocar alguma trava no que o mundo se transformou, uma engenheira demitida do Facebook e um jornalista do Wall Street Journal, que compreendem a gravidade do que está se vendendo tanto interna quanto externamente, para mobilizar um quadro de dominação intelectual. 

Tudo parece mais amorfo que articulado ao longo da projeção, a mensagem em primeiro plano vai sendo construída para um fim quadrado, sem os registros que poderiam causar algum brilho ao todo. É como se todo o estado das coisas, que é sim cada vez mais preocupante, estivesse à serviço de algo esquálido, e nem temos a impressão de que a tentativa era de algo com maior pujança. Em tempos de streamings preguiçosos, apostando na mesmice e em fórmulas já doutrinadas, O Outro Lado das Redes não faria diferença se fosse lançado pela Netflix como um produto menor deles, que não serviria para a corrida de premiações. Vale a lembrança de que, há poucos anos, a pandemia obrigou a distribuidora original de Os 7 de Chicago a vendê-lo para a mesma Netflix, e esse seu novo filme parece ainda mais talhado para esse lugar. 

Entendam, não estou me comunicando a respeito de um filme abaixo de qualquer cotação analítica não, mas sua aceitação em ser apenas mais um projeto sem viço e ainda assim, que se pretenda um lugar de debate, me soa quase infantil. Mesmo o elenco estelar (Jeremy Allen White ou Jeremy Strong, ambos mornos; Mikey Madison promove uma fricção pela forma como está ampliada do que vimos em “Anora”; Wunmi Mosaku é a que mais fica na memória) não tem muito a fazer diante de um material pouco inspirado, quase uma cartilha obrigatória sobre como realizar um filme jornalístico. Pouco resta do filme quando as luzes se acendem. 

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