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Godzilla Minus Zero aprofunda as feridas históricas de uma nação traumatizada pela guerra

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O que se segue a um fenômeno? Há dois anos, Godzilla Minus One enfrentou gigantes da indústria estadunidense (e mundial) para mostrar que seu material original, de profunda conexão com a cultura japonesa, além de ser um personagem licenciado àquela mítica, é ainda melhor desenvolvido dentro de casa. O filme foi transformado em acontecimento cultural e tornou-se item obrigatório da cinefilia. Seu diretor, Takashi Yamazaki, então resolve retornar para dar mais um capítulo a uma saga que entende seu entorno como provedor de humanidade e sacrifício. Godzilla Minus Zero não é uma continuação oportunista, mas qualquer movimento nesse sentido parece esvaziado diante das expectativas de mercado; o resultado da análise, no entanto, prescinde de seus resultados monetários. 

Reencontramos então a família formada anteriormente, e que agora, em 1949, volta a ser atormentada não apenas por ‘kaijus’ históricos, mas pela ameaça de novas perdas e que novamente a separação possa ser definitiva. Em mais de um sentido, Yamazaki quer falar sobre essas ausências mesmo quando ainda há presença; suas realidades são separadas pela urgência do trabalho coletivo, e esse fazer se comunica com a força de que um provável extermínio de feras possa ser efetivado. No universo de Godzilla Minus Zero, o roteiro não diminui a importância narrativa ou imagética do personagem-título, mas não trata-se apenas de uma dependência de imagem em cena. Suas proporções são equivalentes ao que é contado na página ao lado, enquanto ataques de proporções épicas acontecem, e o amor mais uma vez é um desses focos. 

Se há dois anos, o primeiro filme dirigido por Yamazaki centrava seus esforços na construção de universo que unisse as ações humanas provenientes da guerra, seus pecados e esforços e as muitas maneiras simbólicas com as quais algo como o surgimento de Godzilla poderia se comunicar com os eventos dramáticos, dessa vez esse pano de fundo já é estabelecido. Isso abre frente para que o personagem título e o surgimento de um rival sejam ainda mais centralizados no contexto de espraiar sua narrativa. Se os humanos continuam tendo destaque na produção, Godzilla Minus Zero reintroduz a fantasia como ponto focal das ações do filme. Isso não tira o peso dramático do que vemos, apenas centraliza os esforços de produção na direção do espetáculo. 

E dessa vez essa sensação de estarmos diante de algo fabular consegue tomar a dianteira ao humanista – embora tudo ainda soe mais crível ou delicado, que qualquer similar hollywoodiano. Não há mais o sentimento de inquietude ao deparar-se com o encontro com as criaturas na tela, mas a transversalidade encarada com os que lidam com a sobrevivência diária (a guerra e o massacre pelo qual o país sofreu, ou seja, tudo que tem a ver com a metaforização ainda presente na relação do Japão com a Segunda Guerra Mundial, e o resultado do confronto com os EUA) ainda estão intactos. Mas a ideia primordial para isso ser utilizado dessa maneira filosófica foi apresentada antes, e aqui sua força só é apresentada a contento na reta final. 

Até lá, são as aparições do protagonista de Godzilla Minus Zero que define nosso interesse pelo que está posto. Se há dois anos atrás tais esforços soavam como algo sobrenatural, o espectador a essa altura já entendeu o poderio e a capacidade dos profissionais em entregar um digno (e novo) vencedor do Oscar de efeitos. E nessa ideia, isso é mostrado com igual naturalidade para um espectador que busque tanto algo substancioso, com seu viés dramático de arco consistente, assim como suas apostas no cinema fantśtico também se encontram afinadas. O que pode então significar novidade no título novo, que não a permanência de suas qualidades já apresentadas anteriormente? 

É justamente pela manutenção de suas qualidades primordiais, em perceber que seus predicados seguem intactos e podem ser expandidos em um próximo capítulo e principalmente pela força com que Godzilla MInus Zero se despede do público. A trama da família japonesa, que permanece em estado de tensão durante a batalha, é amarrada de maneira nada extraordinária, e é exatamente esse o seu maior mérito. São sequências que testam o público no quesito emoção, e nada ali parece fora do lugar justamente porque estivemos mais uma vez envolvido com esses personagens e suas decisões durante mais de 2h. Com um movimento que realça um movimento de liberdade adquirida (que pode evaporar a qualquer momento, ou seja, estamos falando de uma sensação volátil), não existe maneira melhor de encerrar um filme do que no seu ápice. 

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