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O último Trago: Decisões técnicas e estéticas da direção ressaltam o teor sócio-político da obra

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Uma mulher resgatada na beira de uma estrada no sertão nordestino incorpora o espírito de uma guerreira indígena, desencadeando uma série de eventos que atravessam espaço e tempo. Este é o resumo de O Último Trago, longa nacional que, partindo desta premissa, aborda temas como dominação étnico-racial e resistência. No entanto, o filme – dirigido por Pedro Diógenes, Ricardo Pretti e Luiz Pretti e escrito pelos três em colaboração com Francis Vogner -, vai além disso; trata-se de uma alegoria em três atos, que, rapidamente, demonstra sua vontade sua vontade de atingir diferentes gêneros. Somando isso à temática e à estética, o longa não se apresenta como uma produção fácil de ser digerida pelo público, mas, sem dúvida, há o que se extrair dela.

Assim, equilibrando-se entre o real e o lúdico, o filme baseia-se muito no estímulo aos sentidos do espectador para colocá-lo dentro da narrativa, apesar do estranhamento que esta escolha possa causar. A cinematografia de Ivo Lopes Araújo – a qual trabalha fortemente contrastes – passa a sensação quase de irrealidade ao, às vezes, ocultar todo o fundo da cena e iluminar apenas com fachos de luz o assunto de interesse. Além disso, constantemente, as decisões técnicas e estéticas da direção ajudam a ressaltar o teor sócio-político do roteiro. Porém, é justamente nesta intersecção entre narrativa e produção que o projeto encontra seu principal problema.

Desde o começo, fica claro que o filme possui uma grande ambição estética/visual para ajudar a construir a temática pesada. Ao longo do primeiro ato, de fato, o longa consegue envolver e intrigar suficientemente o público para que ele queira assistir aos dois arcos seguintes. Porém, a partir do segundo, o espectador logo fica com a sensação de que as preocupações com o visual superaram a narrativa, que passa a alternar blocos expositivos que tiram a audiência da história – uma contradição, uma vez que a ideia era criar tramas alegóricas/místicas, o que, em geral, dispensa a necessidade de muitas explicações – com uma pegada misteriosa, demonstrando uma falta de equilíbrio entre os dois aspectos.

Desta forma, O Último Trago é, com certeza, uma produção ambiciosa que tem um bom tema nas mãos e até algumas boas ideias, mas perde o pulso de sua narrativa ao estabelecer que tentar impressionar visualmente o espectador era sua prioridade – embora, de fato, consiga levar ao público imagens deslumbrantes, mas, infelizmente, apenas isso não é suficiente para segurar a uma hora e meia de duração do filme, que, por fim, não consegue se desenvolver de forma satisfatória, o que é uma pena, uma vez que há temas como a resistência da mulher negra, o aniquilamento dos povos indígenas e o desejo de reparação de dívidas históricas. Mas, só o fato de essas temáticas terem sido abordadas no atual momento sócio-político do Brasil, já torna esta experiência válida.

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