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Inferninho passeia pela estética queer e kistch, transitando pelo campo teatral

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Uma cantora desafinada, um atendente fantasiado de coelho, clientes tão peculiares quanto os funcionários. Estes são os tipos que povoam o Inferninho, um bar decadente comandado por Deusimar (Yuri Yamamoto), uma chefe um tanto quanto exploradora, mas sentimental, que consegue ter o carinho e, até mesmo, certa devoção de seus empregados. O lugar, à primeira vista tem ares de Purgatório dada a nula interação entre seus frequentadores impávidos, no entanto, por outro lado, também possui uma aura de abrigo para os excluídos e perturbados. Certa noite, chega Jarbas (Démick Lopes), um marinheiro – ofício sinônimo de liberdade e inconstância – que mexe com os sentimentos da proprietária, com quem inicia um relacionamento. Contudo, a dona do estabelecimento sonha em deixar local e conhecer o mundo, mas o homem se apega àquele ambiente.

Para um filme dirigido por Guto Paredes e Pedro Diógenes, Inferninho se mostra um ponto fora da curva na filmografia dos cineastas – que têm no currículo produções como O Último Trago e O Uivo da Gaita, este dirigido apenas por Diógenes -, os quais declararam que o novo projeto se trata de um filme de amor. Talvez, por isso, o longa seja muito mais pudico do que seus antecessores. Assim, apesar de manter uma estética queer e kistch que transita pelo campo teatral, não há sexo, drogas e rock ‘n’ roll, tudo isso é apenas insinuado para que o romantismo prevaleça, como uma forma de demonstrar que tipos marginalizados, como lésbicas, gays, travestis e transsexuais também podem sonhar como o amor idealizado – e o fazem -, sendo, portanto, dignos de conhecê-lo e vivenciá-lo.

No entanto, o roteiro – escrito pelos próprios diretores – peca ao focar toda a narrativa em Deusimar e seus desejos, relegando todas as outras personagens coadjuvantes a cumprir funções específicas na trama, dando a sensação de que não são, de fato, pessoas, mas peças para desenvolver o arco da protagonista – talvez, o único membro tridimensional presente em cena, aspecto aproveitado por Yamamoto para a construção de uma personagem complexa e a´te cativantes, mesmo que dotada de um forte egoísmo. E este subdesenvolvimento – proposital ou não – dos carácteres secundários fica evidente no ato final, quando o roteiro oferece soluções simplistas e quase fantasiosas para a resolução do único conflito do enredo – aqui, não se trata nem de um Deus Ex-Machina, uma vez que o roteiro decide, simplesmente, mudar o perfil de uma das personagens em prol da conciliação.

Isso faz com que, pela primeira vez, haja o senso de “Família Inferninho” pregada ao longo do filme, mas nunca perceptível em cena – embora, o que funcionasse fosse o conjunto em vez do indivíduo. Assim, “Inferninho” não esconde ser puro escapismo romântico – o que não é nenhum problema -, porém, o longa peca ao não aproveitar todo o potencial de personagens coadjuvantes – em especial, Luiziane (Samya de Lavor), que dá vida à cantora desafinada que encara o ofício com seriedade e devoção, sendo capaz de representar diversas emoções e estados de espírito em suas apresentações -, e, embora tenha qualidades técnicas – como o design de produção apurado que decora o bar decadente com lixo, mas sempre mirando no luxo -, não se desenvolve e aprofunda tanto quanto poderia, considerando os curtos 82 minutos de duração.

 

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