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	<title>Arquivos José de Abreu - Rota Cult</title>
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	<description>Aqui você encontra dicas culturais na cidade do Rio de Janeiro!</description>
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	<title>Arquivos José de Abreu - Rota Cult</title>
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		<title>&#8220;A Baleia&#8221; extrai colossal atuação de José de Abreu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rodrigo Fonseca]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Jun 2025 11:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Teatro]]></category>
		<category><![CDATA["A Baleia"]]></category>
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<p class="has-text-align-center">Embora &#8220;Moby Dick&#8221; navegue com mais graça no oceano do inconsciente coletivo, uma vez que sua personagem-título foi caçada até por Gregory Peck (1916-2003), o texto hoje mais estudado de seu autor, o nova-iorquino Herman Melville (1819-1891), é &#8220;Bartleby, O Escrivão&#8221; (1853). Sua análise ampliou-se no século XXI pelo fato de ter oferecido aos estudos literários a percepção apática da falta de projeto ideológico da contemporaneidade. No conto se lê: &#8220;Nada incomoda tanto uma pessoa sincera quanto a resistência passiva&#8221;. Não é desse Melville que se fala em &#8220;A Baleia&#8221;, peça de Samuel D. Hunter, mas o espírito é similar. Não por acaso, um dos signos do espetáculo é um sofá. Nele, não há fricções. A esperança é expressa em sutilezas. <br><br>Nesse tal sofá, encontra-se um homem que amava Melville, ou, no mínimo, o relato dele sobre um cetáceo que servia de metáfora à Modernidade, o encouraçado artístico que atropela as pasmaceiras do pensamento clássico e amputa os membros inferiores que sustentam a inércia do processo civilizatório. Classificada como cachalote, Moby Dick estraçalha aqueles que se consideram profetas de seu próprio destino sem vazarem o oceano da futilidade imputado a eles pelas convenções sociais. &#8220;Eu não sei tudo o que está chegando, mas seja o que for, eu vou até lá rindo&#8221;, escreveu Melville, que fez seu Bartleby ser herói ao dizer &#8220;Prefiro não&#8221;, refutando ordens. Navegar é preciso, como bem recomendavam os argonautas, mas no refúgio de uma poltrona, no sommier da acomodação, os remos da vida se estagnam. Charlie estagnou.    </p>



<p class="has-text-align-center">Farol dentro da ilha em que esse dedicado professor de Redação transformou seu corpo, beirando cerca de 200 quilos e isolando-se do mundo, Melville cunhou a frase ideal pra quem ensina o verbo &#8220;perseverar&#8221;: &#8220;É melhor falhar na originalidade do que ter sucesso na imitação&#8221;. É o que Charlie diz a estudantes via Zoom, sem ligar a câmera de seu computador, alegando falha no hardware. A fala vem da incapacidade que ele tem em se aceitar. Em aceitar a dor que o levou à condição retratada no inquietante &#8220;The Whale&#8221;, título original do drama de Hunter, que virou filme – e que filme! &#8211; em 2022, pelas lentes (geniais) de Darren Aronofsky.&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">Foi o mais encantador de todos os concorrentes ao Oscar de 2023, sobretudo pela forma como seu protagonista, Brendan Fraser, imola-se diante da câmera. Talvez por sua magnitude, ver a forma como José de Abreu se sai no mesmo papel é algo tentador. Fraser foi um ídolo para quem adolesceu ou iniciou a vida adulta na década de 1990, sobretudo depois de &#8220;George da Selva&#8221; (1997) e &#8220;A Múmia&#8221; (1999).&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">Viveu um estrelato gigante e decaiu, atomizado por uma série de conflitos pessoais e profissionais. Quando ganhou a estatueta de Hollywood, há dois anos, por seu desempenho como Charlie, disse &#8220;Isso aqui é o multiverso!&#8221;, sem acreditar no próprio&nbsp;<em>comeback</em>. Sua vitória carregava a mítica da redenção. Sua interpretação tinha mel, apesar de todo o fel de Charlie.&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">Aliás, a montagem brasileira conta com tradução e direção de Luís Artur Nunes, e atuação colossal de José de Abreu. Estamos diante de um dos mais talentosos atores do Brasil (e em qualquer mídia), que ajudou a fazer de &#8220;Antes Que Eu Me Esqueça&#8221; (2017) e de &#8220;Anjos do Arrabalde – As Professoras&#8221; (1987) filmes seminais. Seu Charlie não requer comparações com o de Fraser. Eles não se eclipsam. Cada um é astro num sistema solar próprio, que tem na carpintaria dramatúrgica de Hunter seu sol.  </p>



<p class="has-text-align-center">O que dói em Charlie não são os quilos da obesidade mórbida que estão conduzindo-o para a morte, conforme a amiga e enfermeira Liz (Luisa Thiré, numa afetuosa composição) alerta. O que lhe dói é a incapacidade (aparente) de fazer com que a filha com quem ele pouco tinha contato, Ellie (Gabriela Freire), possa se aceitar no turbilhão hormonal de sua adolescência. A culpa que Charlie carrega , certamente, não vem da escolha de ter deixado seu casamento com a mãe de Ellie, Mary (Alice Borges, em radiante participação), para se casar com um ex-aluno por quem se apaixonou. A culpa em seu peito entupido de colesterol vem do fato de não ter conseguido fazer o rapaz, seu amado, aceitar-se, livrando-se de todas as ataduras moralistas de seu culto religioso. </p>



<p class="has-text-align-center">O tal culto volta a bater em sua porta, agora que sua saúde está com o prazo de validade contado, na figura de um missionário (Eduardo Speroni), num momento em que Ellie reaparece, pedindo ajuda em Gramática. É um momento no qual a foice do excesso parece pesar sobre sua cabeça.<br><br>No cinema, &#8220;excesso&#8221; é a palavra mais essencial para entender a adaptação da grafia teatral de Hunter, uma vez que sua versão para as telas é esculpida por Aronofsky, o diretor de &#8220;Cisne Negro&#8221; (2010). Desde 1998, quando rasgou cartilhas de convenções cinéfilas ao lançar &#8220;Pi&#8221;, ele concretizou uma reputação singular como &#8220;O&#8221; cronista de tudo o que é excessivo. Do excesso de entorpecentes (em &#8220;Réquiem Por Um Sonho&#8221;) ao excesso de vaidade (abordado no estonteante &#8220;The Wrestler – O Lutador&#8221;, que lhe rendeu o Leão de Ouro em 2008), Aronofsky fala sobre pessoas no limite do aceitável, no transbordamento de seus desejos, no limiar do tolerável. A saúde de Charlie não tolera mais nenhuma das asinhas de frango frito que ele devora, nem as fatias de pizza gotejantes de óleo que adora. Exceder-se é uma forma de ele se proteger e superar obstáculos.<br><br>Não existe esse traço do &#8220;excesso&#8221; em Luís Artur Nunes, um meticuloso pensador do espaço cênico. Em seu histórico autoralíssimo na direção, ele traduziu a gravidade moral que nos empuxa e nos aterra a partir de soluções gráficas requintadas, vide sua montagem de &#8220;A Mulher Sem Pecado&#8221;, em 2000, e seu cartunesco &#8220;A Vida Como Ela É&#8221; de 2002. Seu &#8220;A Baleia&#8221; se preocupa mais com alianças, as possíveis e as derradeiras. O Melville citado por Hunter dizia: &#8220;Acredito que meu corpo não passa de um abrigo para meu melhor ser. Na verdade, que leve meu corpo quem quiser, pois ele não é quem eu sou&#8221;. É do sentido existencialista da palavra &#8220;ser&#8221; &#8211; no caso, &#8220;ser pai&#8221; – que &#8220;A Baleia&#8221; de Luís Artur fala, lindamente.&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">Nos afluentes em que o verbo viver se mete (ou se perde), a paternidade pode ter um peso de Moby Dick e esmagar relações partidas. Pode também, contudo, ter a leveza que o mamífero aquático de Melville por vezes demonstrava e transformar abraços em abrigos.&nbsp;Nessa bifurcação de caminhos, Luís Artur opta por águas quentes, de afetuosidade e de reconciliação. No borbulhar delas, José de Abreu inscreve sua atuação na Eternidade, na luz outonal da iluminação de Maneco Quinderé. Luz que nos inebria.&nbsp;&nbsp;</p>



<p><a href="https://rotacult.com.br/2025/05/jose-de-abreu-retorna-aos-palcos-apos-um-hiato-de-mais-de-dez-anos-em-a-baleia/">Saiba mais sobre a peça! </a></p>
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