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	<title>Arquivos Mary Bronstein - Rota Cult</title>
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	<description>Aqui você encontra dicas culturais na cidade do Rio de Janeiro!</description>
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		<title>Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria: Uma narrativa de contornos feministas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Carbone]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 31 Dec 2025 14:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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<p class="has-text-align-center">Se a pressão prévia para aprovação de um título é descabida por qualquer que seja o sintoma (admiração pelo cineasta, por exemplo), ainda mais absurda é o oposto dessa prática &#8211; porquê alguém deveria &#8216;desgostar&#8217; antecipadamente de um filme? Apesar de tal questão, o nosso tempo guarda questões infindáveis em relação às obras, como a antipatia que a cinefilia nutre por algumas especificidades; a A24 seria um deles. Mesmo com tantos sucessos de público e crítica no portfólio, a produtora independente criou uma espécie de selo de aprovação em temáticas e encaminhamento narrativo que as más línguas desaprovam,&nbsp;geralmente porque contam algo pouco sutil. Com essas características, uma produção curiosa impressiona por carregar esse dado de desaprovação prévia, tanto quanto responder com novidade ao circuito:&nbsp;<em>Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria</em>.&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">Dirigido pela também atriz Mary Bronstein, o filme parte de uma realidade metaforizada (às vezes até explicitamente) para contar uma história aguda a respeito da perda de controle absoluta que podemos ter em relação ao nosso entorno, que progressivamente se desmorona. Quando menos podemos esperar, <em>Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria </em>nos envolveu de maneira indelével, e isso vale inclusive aos detratores. Porque é complexo sair da sessão indiferente ao que assistimos, uma narrativa de contornos feministas no qual é exigido muito domínio de um exagero pouco visto nas telas hoje, por seu viés tóxico no retrato que faz às relações humanas. </p>



<p class="has-text-align-center">No caso, Linda. Vivida por Rose Byrne em um daqueles momentos de epifania raros da qual um ator pode alcançar na vida, essa é a história de uma mulher que literalmente vê seu mundo ruir. Mas se a sugestão da queda do teto em sua cabeça de maneira literal poderia sugerir algo menos imaginativo por parte do roteiro,&nbsp;<em>Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria&nbsp;</em>mostra ao espectador que esse não é o estopim do que está em curso. Esse sim é o momento no qual flagramos a jornada de uma mulher esgotada, mas os elementos explicitamente já estavam&nbsp;no lugar para promover o que sugere uma catarse que precisa acontecer. Não no roteiro ou no campo das imagens, mas no lugar onde essa personagem precisa reconhecer o caos que se arvora em sua direção &#8211; e que lhe é constantemente negado; sim, a ideia de estagnação é tolhida socialmente a cada nova sequência.&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">De muitas formas, <em>Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria </em>está falando sobre performance social, sobre aceitação da própria falência emocional, e sobre feridas invisíveis ao olho nu. Essa performatividade, quando é exigida ao gênero feminino, ainda trafega em outras áreas, como a necessidade de sucesso na maternidade (de maneira irrestrita), na eterna guerra dos sexos onde o masculino já agrega estímulo social vantajoso, que podem gradativamente tornar a existência em horror. Parece excessivo, mas todas essas questões estão em jogo no filme, sem mostrar a pressão exercida pela metáfora inicial, que sim, talvez seja exagerada, mas que é igualmente bem sucedida para exemplificar suas equações. A transformação é a chave para a entrada do abstrato, rasgando uma possível normatividade narrativa que nunca foi pretendida. </p>



<p class="has-text-align-center">A partir da manutenção dos signos que apresenta, no entanto, o filme&nbsp;abre mão dessa postura mais coloquial, para refletir uma sensação de terror intrínseco não somente àquela mulher, mas a todas as mulheres em situações afins. Apesar das provocações,&nbsp;<em>Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria&nbsp;</em>reluta em assumir-se como um exemplar do gênero, talvez entendendo que precisava conseguir comunicação com a norma. O resultado é um exercício de estudo de personagem dos mais ricos recentemente, que flerta com os dogmas do horror em imagens e na pura sensação que o filme quer carregar, e isso basta para defini-lo como tal; assim como sua sutileza tende a desagradar aos detratores desse cinema de significados, códigos imagéticos e mal estar. Por trás das belas transições que Bronstein propõe, existe uma tentativa regular de transcrever o complexo universo feminino.&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">Ao lado da autora, caminha junto à criação o rosto do projeto. Byrne se apossa do material com uma fúria não vista antes, e nos transporta para o cerne da questão. Ainda que <em>Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria </em>tenha autonomia de discurso e não limite sua direção, reside na performance da atriz uma co-autoria que vai além da intelectualidade do gesto. Ela é o molde sob o qual a narrativa sustenta sua voz, enxergando nela mulheres que não estão simplesmente à beira de um ataque de nervos, e sim clamando por múltiplos pedidos de ajuda. Muito acima das questões maternas que não encontram saídas práticas e emocionais, o filme se cerca delas para observar a desestabilização provocada pelo excesso de demandas que cabem ao corpo feminino acolher. E quando o colapso tão bem defendido por Byrne vem à tona, é impossível resistir ao apelo de enxergar a barreira para a paz de espírito; a visão que retorna, quando finalmente existe outro tipo de libertação: o de entender os limites, e abraçá-los.  </p>
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