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	<title>Arquivos Missão Refúgio - Rota Cult</title>
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	<description>Aqui você encontra dicas culturais na cidade do Rio de Janeiro!</description>
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		<title>Missão Refúgio consolida a estética autoral de &#8216;dublê diretor&#8217; de Ric Roman Waugh</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rodrigo Fonseca]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Mar 2026 14:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Críticas]]></category>
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<p class="has-text-align-center">Imortalizado nos tímpanos brasileiros com o falar paulista de Armando Tiraboschi, o Celacanto sagrado da dublagem nacional, o inglês Jason Statham engoliu Dwayne Johnson e Vin Diesel na disputa pelo posto de ferrabrás número 1 do cinema. Em &#8220;Megatubarão&#8221; (2018), cansado de ver gente morrer para um peixão mastodôntico, ele deixa a tecnologia de lado, pega um facão e dá jeito, sem dó nem piedade, do bicho, mostrando que brucutu também é bem-vindo neste mundo, quando tem altruísmo. Esse é seu arquétipo, uma vez mais em <em>Missão Refúgio.</em> </p>



<p class="has-text-align-center">&#8220;Shelter&#8221; (no original) é um filme amargo, sem conceções ao riso. Não é uma chanchada de Jackie Chan ou Will Smith. É ação à moda Stallone, tipo <em>Rambo II: A Missão</em> (1985), onde se entende que todo herói é um ser &#8220;dispensável&#8221;. Não é que ele seja descartável, pois não se mantém uma sociedade sem um guardião da <em>polis</em>. Mas herói, como cantava o compositor Arnaud Rodrigues, &#8220;é o cabra que não teve tempo de correr&#8221;. Nem para a fama. Talvez porque os guardiões que pavimentem a manutenção da vida na Terra dispensem holofotes. </p>



<p class="has-text-align-center">Aliás, os tipos vividos por Statham gostam de ser invisíveis, nas sombras da vida, no fio da morte. Do seu jeitão despojado e de seu acento cockney, num falar de palavras duras, o astro de <em>Missão Refúgio</em> parece o oposto da apolínea figura de heróis hollywoodianos clássicos, como Gary Cooper (1901-1961), sobretudo em sua maneira de diminuir a densidade populacional da bandidagem, por onde pisa.</p>



<p class="has-text-align-center">O assassino super bem treinado que Statham interpreta sob a direção de Ric Roma Waugh guarda semelhanças com o filme que deu ao supracitado Cooper o Oscar de melhor ator, em 1953: o faroeste &#8220;Matar ou Morrer&#8221; (&#8220;High Noon&#8221;). Nos cinemas, a ação é filha cosmopolita do western. Jamais haveria Rambo sem Ethan Edwards, o maior caubói de John Wayne, visto em &#8220;Rastros de Ódio&#8221; (1956). E a ação, tal qual o bangue-bangue, foi tornada proscrita pelos fariseus das fake news. E já é assim faz tempo&#8230;&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">Quando entrou na puberdade das artes modernas, após a II Guerra, o Cinema sacrificou o faroeste, tratando o filão como um sarcófago das narrativas épicas, incapaz de suportar o peso da psicologia que os anos de 1950 (em diante) passaram a impor aos storytellers, como um veio de espichar a durabilidade e a essencialidade dos personagens. Vem sendo assim também com os filmes de ação, que parecem viver de franquias como &#8220;Velozes &amp; Furiosos&#8221;, com Vin Diesel; &#8220;Os Mercenários&#8221;, com Stallone; e a revolucionária &#8220;John Wick&#8221;, com Keanu Reeves.<br><strong><br></strong>Para dar adeus ao faroeste, gênero que experimentou sobrevidas, sempre trágicas (&#8220;Os Imperdoáveis&#8221;), niilistas (&#8220;Os Oito Odiados&#8221;) ou sazonalmente ambientalistas (&#8220;Dança Com Lobos&#8221; ou &#8220;First Cow&#8221;), Hollywood esculpiu &#8220;Matar ou Morrer&#8221;, escalando como signo de bondade um xerife: Will Kane. Cooper o encarna como um herói outrora intrépido e, hoje, cansado pela idade, ciente de já ter dado à sua cidade o melhor de si. Mas um bandido do passado vai voltar, no trem das 12 horas, para se vingar dele.&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">Seria fácil, fácil pra ele, fugir dali, deixando o passado pra trás, e meter o pé. Mas o molde a partir do qual Kane foi esculpido transforma barro em gente a partir de uma mandinga, hoje cada vez mais esquecida, que prega: &#8220;Um homem tem que fazer o que um homem tem que fazer&#8221;. Kane fica não porque precisa, mas porque tem um dever, um fardo. O mesmo se dá com Statham nesta pérola de Roman Waugh. Aliás, é sempre isso o que ele faz, numa perspectiva autoral de construção de modos de atuar. Statham é um &#8220;ator autor&#8221;. E Roma Waugh é um &#8220;dublê autor&#8221;.</p>



<p class="has-text-align-center">Apesar da patrulha de que é vítima, à luz de aparelhos ideológicos da correção política, o nicho chamado &#8220;cinema de ação&#8221; encontrou um balão de oxigênio capaz de restaurar seu fôlego pro século XXI, à luz da chegada de dublês à direção. Chad Stahelski é o mais notório deles, por ter sido o responsável pela mais brilhante franquia do gênero em anos a fio: a saga &#8220;John&nbsp;Wick&#8221; (2014-2023), que, no ano passado, inspirou um derivado, &#8220;Bailarina&#8221;. Vindo também de loucas aventuras em bastidores de&nbsp;<em>blockbusters</em>&nbsp;e filmes B, David Leitch conseguiu uma vitória de padrões históricos para os dublês-realizadores ao ser escalado para abrir o Festival de Locarno, na Suíça, em 2022, com &#8220;Trem-Bala&#8221;, estrelado por Brad Pitt.&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">Além dele e de Stahelski, tem outros nomes nessa seara, ainda não tão cacifados, mas já bem-vindos em Hollywood nos departamentos de produções de orçamento mediano, mas de ampla ambição estética quando o assunto é plastificar o trinômio &#8220;tiro, porrada e bomba&#8221;. Ric Roman Waugh é um deles, aliás, um dos melhores, não só no desenho de sequências de perseguição ousadas como no esforço de injetar humanidade nas tramas.&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">Ele trabalhou em sets de alto risco nos anos 1990. Servia de substituto para Jean-Claude Van Damme e Dolph Lundgren em &#8220;Soldado Universal&#8221; (1992), nas filmagens das situações mais letais. Fez&nbsp;<em>stunts</em>(termo usado para a ação dos dublês) ainda em &#8220;Eles vivem&#8221; (1988) e &#8220;O Vingador do Futuro&#8221; (1990). Isso assegurou a ele apreço pela representação da fragilidade e da falibilidade dos heróis, o que ele levou para seu longa de estreia, &#8220;Na Sombra do Crime&#8221;, com Cuba Gooding Jr. Seus heróis carregam um desamparo incontornável.</p>



<p class="has-text-align-center">Trabalho mais madudo (e frenético) do cineasta, &#8220;Missão Refúgio&#8221; valoriza afetos na mesma medida em que arranca nosso fôlego ao despedaçar a alma de Michael Mason, um matador treinado pelo governo, lotado no grupo de elite Black Kites. Ele é assombrado por traumas do passado. Statham consolida essa assombração numa atuação taciturna (ainda que desfile carisma a cada gesto). Faz dele um ronin, um samurai sem mestre.&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">Para se afastar do combate, Mason opta por viver em completo isolamento em uma ilha remota da Escócia, longe de qualquer contato com o mundo, acompanhado apenas de seu cão. Todas as semanas, esse vigilante cansado de guerra recebe mantimentos de Jessie (Bodhi Rae Breathnach), uma jovem que chora a perda da mãe e que fica cada vez mais frustrada com o isolamento de seu cliente. Um dia, Jesse fica presa na ilha após uma tempestade. Mason cuida dela e vai ao continente comprar roupas, acidentalmente atraindo a atenção do seu antigo superior, Manafort (Bill Nighy, sem colossal), que envia uma equipe para eliminá-lo.&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">Ao se ver como um camundongo com hidrofobia numa caça de gatos a ratos, Mason mata os homens e foge com Jessie para uma quinta escocesa, iniciando um jogo em prol de sua sobrevivência sob a mira do matador Workman (Bryan Vigier). O resultado desse processo, editado numa montagem dionisíaca por Matthew Newman, é um herói mortal, não um deus. Statham gera identificação se dê pelo prisma da vulnerabilidade, embora nos pegue pelo coração com sua cara de mau e com seus golpes infalíveis.&nbsp;<br>O que temos aqui é um espetáculo pop vigoroso&#8230; ainda que crepuscular.&nbsp;</p>
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