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	<title>Arquivos O mal não existe - Rota Cult</title>
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	<title>Arquivos O mal não existe - Rota Cult</title>
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		<title>O Mal Não Existe: Ryusuke Hamaguchi  invade o terreno do sombrio sem ser sensacionalista</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Carbone]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Jul 2024 14:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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<p class="has-text-align-center">Podemos dizer qual o futuro do cinema, mesmo que seja um bastante específico como o japonês? Neste momento, não creio. O Japão teve um 2023 extraordinário do ponto de vista de realização pessoal, interna e externa. Conseguiu dois campeões de bilheteria locais que reverberaram mundo afora, um gerado por um veterano (<em>O Menino e a Garça</em>, de Hayao Myiazaki) e um outro encabeçado pelo máximo em juventude (<em>Godzilla Minus One</em>, de Takashi Yamazaki), aliás, ambos saíram da festa do Oscar com um troféu cada. Além disso, <em>Dias Perfeitos </em>conseguiu sua indicação na categoria internacional e deu a seu protagonista, Koji Yakusho, um reconhecimento global. Além disso tudo, seu prodígio mais estelar, Ryusuke Hamaguchi, lançou seu novo filme no Festival de Veneza, de onde saiu com o segundo lugar da competição com <em>O Mal Não Existe</em>, que estreia essa semana.</p>



<p class="has-text-align-center">Para quem não ligou o nome a pessoa, Hamaguchi acabou de levar um Oscar para casa (além de indicações a filme e direção) por seu&nbsp;<em>Drive my Car</em>, e esse é seu novo filme. Os já conhecidos amantes do cineasta &#8211; que também nos encantou com&nbsp;<em>Roda do Destino</em>,&nbsp;<em>Asako I &amp; II&nbsp;</em>e outros &#8211; não ficarão decepcionados com sua nova produção e devem estar prontos para uma provável nova indicação do diretor por ele. Que esteja em compasso menos ambicioso aqui, provavelmente em momento de entressafra emocional e profissional, ainda assim seu petardo que revela-se filhote de um movimento de suspense quase esquecido é uma obra que carrega a perturbação de seu cineasta para conflitos um pouco menos exigentes.&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">Ao contrário de seus filmes recentes, que centravam suas narrativas em relações humanas e seus conflitos, contradições e descobertas,&nbsp;<em>O Mal Não Existe&nbsp;</em>faz parte de um sub gênero do thriller, pouco conhecido em sua definição, que seria o suspense (ou terror, dependendo da intensidade) ecológico. Títulos como&nbsp;<em>Fim dos Tempos&nbsp;</em>ou&nbsp;<em>Movimentos Noturnos&nbsp;</em>trataram sobre esse lugar, que aqui tem uma construção baseada no cinema de fluxo, ou &#8216;slow cinema&#8217; &#8211; esse sim, uma vertente que Hamaguchi passeia com tranquilidade. Com uma atmosfera que privilegia a relação do Homem com a Natureza, cuja base está mais centrada nos elementos naturais que no humano, o filme equilibra estranheza de tom com uma normalidade que desafia as convenções do espectador.&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">Habituados com o cinema estadunidense, que educou o espectador com uma métrica observacional onde cada ação resulta em reação imediata, e um tratamento frontal de sua narrativa, é provável que a relação com&nbsp;<em>O Mal Não Existe&nbsp;</em>seja de atrito, seja qual for a leitura. De um lado, a plateia mais tradicional cobrando da obra um fruição mais direta; do outro, o público que já conhece o cineasta, e a partir disso não consegue absorver o aparente cotidiano empregado pelo projeto. Se existe algo que aparenta constantemente estar fora do lugar, esse mesmo ponto de desordem é capaz de ser convertido em fascínio, caso o abraço ao que está sendo mostrado for integral.&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">Na trama, uma pequena vila incrustada nas montanhas que vive do turismo local consciente é informada sobre o interesse em sua área de um conglomerado do setor de resorts, que intenciona transformar o espaço em campo de visitação indiscriminada. Hamaguchi poderia lidar com essa premissa de diversas formas, incluindo as que já tem apresentado recentemente, envolvendo uma maneira naturalista de abordar tais temas. O que vemos é um mergulho sutil no artifício, inicialmente rasgando a narrativa dramática com tons de humor ácido que buscam o constrangimento, invadindo o terreno do sombrio aos poucos, sem jamais permitir qualquer visão explícita ou sensacionalista. É um olhar de sugestão que leva o espectador a um estado de desconfiança ininterrupta, acerca de tudo que vemos. </p>



<p class="has-text-align-center">O resultado é um filme surpreendente, ao que estaríamos esperando do cineasta após um grupo de filmes bem aceitos e bem sucedidos. Há uma clara motivação do cineasta em não se repetir, e não entregar o que se espera de uma obra sua. É, certamente, uma maneira cortante de lidar com a consagração, negando o que lhe formou. No caso de <em>O Mal Não Existe</em>, o estranhamento inicial agrega valores inesperados no que o cinema japonês tem ambicionado, cartilhas que parecem mais enquadradas. Hamaguchi sai da zona de conforto que o público poderia querer configurá-lo, para realizar uma produção que &#8220;parece importante&#8221; e solene, mas que não precisa de uma investigação muito séria para entender que o movimento aqui era da casa da experimentação de linguagem, ainda que apresentada dentro do dogmas tidos banais. Do resultado entre a conexão de tantos elementos sem encaixes aparentes é que o cineasta entrega um filme cheio de curvas acentuadas e nervuras agudas. </p>



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