Em 1946, o fotógrafo Marcel Gautherot, em parceria com o também fotógrafo e etnólogo Pierre Verger, percorreu o rio São Francisco documentando a vida das populações ribeirinhas e registrou imagens das carrancas que ainda existiam em grandes embarcações na região. Agora, 38 dessas esculturas e a série fotográfica de Gautherot serão exibidas no centro cultural do Rio de Janeiro, além de duas figuras de proa, outros objetos e documentos

“A viagem das carrancas”, que abre em 5 de dezembro, apresenta ao público 40 carrancas de coleções públicas e particulares e 42 fotografias de Marcel Gautherot pertencentes ao acervo do IMS, além de pequenas esculturas, um modelo de barco e documentos diversos. Entre os destaques da mostra, está a figura de proa da lendária barca Minas Gerais, a maior embarcação que já navegou o São Francisco, esculpida por Afrânio ­– primeiro escultor de carrancas conhecido, ainda no fim do século XIX. Por ocasião da abertura, às 17h teremos uma visita guiada com o curador Lorenzo Mammì.
“Desde o início, as carrancas eram conhecidas pelos traços grotescos, que se tornaram uma característica recorrente do gênero. No entanto, muitas das mais antigas são bastante realistas. É o caso de uma série de cabeças de leão, de contornos quase clássicos, e da maioria dos cavalinhos, usados geralmente em embarcações menores”, explica Lorenzo Mammì, curador da exposição.
Também faz parte da exposição a figura esculpida para a barca Americana por Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany (1882-1985), o escultor de carrancas mais conhecido e respeitado do país. Ele começou a entalhar carrancas em 1905, e essa foi a terceira que fez, finalizada em 1907. Outras carrancas esculpidas por ele compõem a exposição, incluindo seis ‘não navegadas’, ou seja, produzidas por encomenda de colecionadores, entre as décadas de 1950 e 1960.
As fotos de Gautherot, publicadas nas revistas O Cruzeiro (1947), Sombra (1951) e Módulo (1955) e no livro Brésil (1950), chamaram a atenção na época do público e de pesquisadores, pela qualidade estética das peças e por não haver nada parecido em outros lugares do mundo. A publicação dessas imagens e a consequente descoberta das carrancas inaugurou uma nova fase na avaliação e até na criação de arte popular no Brasil. Para Lorenzo Mammì, “abordar hoje esse assunto nos cobra o desenvolvimento de novos instrumentos críticos para a avaliação desse tipo de produção”.
Acompanha a mostra um livro editado pelo Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro, pela Editora Martins Fontes e pelo Instituto Moreira Salles, amplamente ilustrado com imagens das carrancas e com a série fotográfica de Marcel Gautherot, além de registros de Hans Gunter Flieg, Pierre Verger e do pesquisador Paulo Pardal. A publicação inclui ainda ensaios do curador e de Samuel Titan Jr., coordenador executivo cultural do IMS.
A viagem das carrancas é uma realização do Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro e correalização do Instituto Moreira Salles e da Pinacoteca do Estado de São Paulo, por onde a mostra passou antes de chegar ao Rio de Janeiro.
As carrancas
Quase todas as civilizações cultivaram o hábito de ornamentar suas embarcações com figuras esculpidas. Elas desempenhavam, em geral, uma dupla função: tornar a embarcação imediatamente reconhecível e protegê-la contra maus espíritos ou monstros marinhos. Nos séculos XVIII e XIX, os grandes veleiros que aportavam no litoral brasileiro carregavam, com frequência, esse gênero de esculturas.
No Brasil, muitas figuras de proa foram esculpidas por todo o litoral. Mas a produção mais original e consistente foi a desenvolvida no trecho mediano do rio São Francisco entre 1870 e 1945, aproximadamente. Destinava-se às grandes barcas comerciais que percorriam a região e costumavam se reunir em ocasiões especiais, como a romaria do santuário de Bom Jesus da Lapa. Conhecidas inicialmente como “figuras de proa” ou “leões de barco”, acabaram adquirindo mais tarde a denominação de “carrancas”.
A concorrência das embarcações motorizadas e as leis trabalhistas do governo Vargas, que regulamentaram horários e retribuições dos remeiros, tornaram insustentável o primitivo comércio realizado pelas barcas e, com isso, encerrou-se a produção das carrancas. O escultor Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany esculpiu sua última carranca para navegação por volta de 1945. Na década de 1950, retomou sua produção, mas exclusivamente para colecionadores.
 Serviço:
A viagem das carrancas
Curadoria: Lorenzo Mammì
Abertura, 5 de dezembro, às 17h
Visitação: de 6 de dezembro a 20 de março de 2016

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