sangueÉ comum ouvir dizer que toda criança-problema, corresponde a pais-problemas. A crença Lacaniana de que “O filho é o sintoma dos problemas dos pais” e que ao se curar os pais, desapareceriam os sintomas do filho, parece servir de cartilha para a história de John Link (Mel Gibson) em sua busca por redenção. Redenção essa, buscada também por Mel Gibson, que ainda não conseguiu reencontrar seu lugar, depois das polêmicas envolvendo suas declarações consideradas antissemitas e racistas e que lhe custaram o título de persona non grata nos círculos hollywoodianos.

John Link é um ex-presidiário que mora em um trailer, que é também seu estúdio de tatuagens, no meio do nada, onde tenta se reconstruir, após uma vida de álcool e drogas repleta de escolhas erradas. Ao sair da prisão, John parece determinado a andar na linha, mante-se sóbrio e corrigir o que considera seu grande erro: o relacionamento com a filha. Lydia (Erin Moriarty), a filha adolescente, tida como desaparecida, está, na verdade, seguindo os passos do pai e é, nas palavras de John “every loser’s lucky day” (O dia de sorte de qualquer perdedor). Lydia atira, ao que parece acidentalmente, em seu namorado criminoso Jonah, (Diego Luna), que, obviamente, para impulsionar o enredo, tem conexões com o crime organizado mexicano e é jurada de morte por traficantes. Assim, se dá o reencontro tão esperado com o pai, John Link, e também o início da ação, uma vez que, rapidamente John e Lydia pegam a estrada na tentativa de se manterem vivos.

Dirigido por Jean-François Richet (“Mesrine”, ‘Assault on Precinct 13’), o filme conta com boas sequências de ação que mantêm o ritmo, sendo introduzidas com boa regularidade. As cenas de ação são intercaladas por ótimos diálogos. Com um bom roteiro de Andrea Berloff e Peter Craig (baseado no livro homônimo de Craig), a cena de abertura dá o tom do que se pode esperar das piadas, referências e até críticas sociais. Lydia, que tem 16 anos, ao tentar comprar munição e cigarros no supermercado é questionada por sua carteira de identidade para os cigarros, por conta disso, ela decide levar só a munição. O roteiro, dá ao personagem principal boas oportunidades de explorar o timing cômico e Mel Gibson está muito bem na pele de um personagem que lhe é tão familiar, e parece até fazer referência ao polêmico posicionamento pessoal do próprio ator e ao momento político, quando John recebe uma aula de Lydia ao ter uma conversa sobre imigração ilegal na caçamba de um caminhão repleto de imigrantes. Mas, apesar de algumas boas referências, o filme não escapa de alguns clichês do gênero, como cenas desnecessárias que exploram o corpo feminino, ou falas que soam racistas, como a crítica de Lydia a John por não falar espanhol mesmo tendo ficado tanto tempo na cadeia.

O filme conta ainda com excelente participação de Michael Parks (“Kill Bill”, “À Prova de Morte”), como alguém do passado de Link, diretamente ligado a sua prisão e que acaba tendo uma função importante para o desenrolar da história; William H. Macy (“Fargo”), como o melhor amigo e padrinho do AA de John e Thomas Mann (“Eu, você e a garota que vai morrer” e ’16 Luas”), o recepcionista paquerador.

Com uma inteligente e bonita fotografia de Robert Gantz (“Inimigo Público nº 1″ e ‘Assalto à 13ª DP”) que explora o cenário desértico com jeitão “Mad Max”, em que cidades parecem uma realidade distante, o filme vai se amarrando.

“Herança de sangue” tem tudo que se pode esperar do gênero. Repleto de bons elementos, o filme é amarrado de forma competente e garante a diversão, porém, não vai muito além disso e parece que ainda não é dessa vez que Mel Gibson sairá do ostracismo, já que o filme é facilmente esquecível.

Foto: Copyright SND

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here